domingo, 20 de dezembro de 2009

Inquietude



















Inquieta
reviro as palavras guardadas
em busca do que foi dito.
Esse tempo parado
estranho
sopra em mim um vento frio
que percorre meus receios
tentando me mostrar que já não estou.
Mas eu não quero crer que tenha ouvido
ou visto
não lembro
se ainda tenho rumo,
e mesmo revirando todas as palavras
não encontro nada
que me acomode.
Nasci pra não ser
mas sou.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Palavra




















Eu sangro toda palavra
nessa ânsia verborrágica
de dar nome a tudo.

A palpitação dolorosa
de não poder nominar
não estanca minha sangria.

Sigo testando as combinações
mudando os móveis de lugar
cortando os cabelos
evitando os espelhos
e fingindo alegria.
Nenhuma frase me basta.
Eu calo.

Exangue.
Exausta.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tormenta















Já afoguei em desejo as tuas virtudes
já mergulhei tuas verdades nos meus lábios
e causei-te o riso desvairado dos enlouquecidos de amor.
Agora trago seca em minhas mãos pequenas
a raiz de todo sentimento
e me deixo queimar pelo fogo que consome lento
a vastidão seca do que já teve viço.
Nenhuma lágrima ousa tentar apagar esse ardor
de não ser mais
eu que já fui
ousada demais pra tentar fingir inocência
ou confiar nas nuvens baixas.
Nem sempre chove.

sábado, 14 de novembro de 2009

Tempo





















Remexo meus velhos guardados
e encontro a jovem que fui
sorrindo amarelo em 3 x 4.
Ah, eu não sei o que aconteceu
mas não me reconheço nas palavras alegres
das agendas que um dia escrevi.
Sinais da idade, minha mãe diria.
Não sei.
Sei que o tempo me deforma o corpo
me risca o rosto
me cansa as pernas
mas não me convence
que aquela no espelho sou eu.

domingo, 1 de novembro de 2009

Madura




















Quando eu fecho os olhos
que não enxergam além das cercas do meu jardim
tenho a impressão que o dia se faz noite
e um vento frio atravessa meu corpo banhado
provocando um arrepio comprido
que começa na nuca
e eu nem sei onde termina.

Muitos anos atrás eu me achava madura
mas não fazia idéia do que era estar pronta.
Agora eu estou.

Ou quase.

sábado, 31 de outubro de 2009

Desordem




















O sol adentra o quarto em desordem
e penetra minhas pernas semi abertas
como quem tem intimidade
e tempo.
Há tempos que eu me derreto
lava pura, magma, fogo
e queimo tudo à minha volta.
Como agora.
Abro um pouco mais as pernas
pra sentir a quentura quase tímida
e úmida
da manhã de sol.
E lembro de coisas
ou imagino
não sei, a idade me confunde
e me aperfeiçoa.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Reencontro















A ânsia desgovernada
prolonga o abraço suado.
Os braços que apertam forte
enlaçam os anos de ausência
com a sede desesperada
dos que voltam do exílio.
Não há como negar a saudade
que escorre na face corada
de quem se achava perdido.

As palavras caíram no caminho.

sábado, 10 de outubro de 2009

Madrugada






















O amor desesperado
rasga as vestes da madrugada sonolenta
toma pra si, rancoroso e embriagado
a mulher que não pode conter.
Ela parece não querer
mas não importa:
a fome de possuir é maior que o medo
E ela há de pensar que foi um sonho
e consolar-se amanhã nos braços lanhados
do amor que dilacera-se em segredo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Confissão
















A confissão escapuliu-me da boca
e ecoou
solitária
na noite quente.
Minha palavra incontida
não encontrou companhia
no coração empedrado.

Nunca me incomodei com o silêncio
até que ele pesou em meus ouvidos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Tempus fugit














É verde o canto das ondas
batendo em chicotadas frias
nas pernas que já não correm.
O murmúrio repetido
do vai e vem da água salgada
repete num mantra sentido:
carpe diem.

Se der tempo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sussurro















Minha boca desacostumada a calar
tenta engolir com a saliva
o gosto que não deveria sentir.

Pulsa em mim
em desafio
o nome doce e proibido
da palavra que não se limita:

amor.

domingo, 27 de setembro de 2009

Do que me toca


CORPO
(Everardo Norões)

Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.



(Natural de Crato, Ceará, o economista, poeta e crítico literário Everardo Norões escreve artigos e crônicas para jornais e também se exercita na criação teatral. É co-autor das peças Auto das Portas do Céu e Nascimento da Bandeira, de Ronaldo Correia de Brito. Para ver outras criações deste poeta, clique aqui)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Eu não sou a Martha Medeiros!!

Gente, como vocês leram no post abaixo eu estou numa corrida contra o mau uso dos meus escritos hoje... Não é que eu não goste de vê-los espalhados pela net. Ao contrário, sinto uma alegria imensa em perceber que o que escrevo toca tantas pessoas assim. O problema é a confusão que se faz. Agora há pouco eu vi a mesma poesia do post abaixo, Fotografia, atribuida à Martha Medeiros!
Sou uma fã incontestável dos escritos da Martha, que é uma forte referência no meu trabalho, mas não me confundam, por favor!...
Acho que vou parar de procurar no google, senão vou ter um ataque cardíaco ainda hoje!...

É meu!!

Descobri ontem à noite, absolutamente por acaso, uma poesia minha (Fotografia) atribuída à Lya Luft em um blog. Não sei se é pra ficar chateada ou honrada, afinal quem me dera escrever como a Lya Luft, mas o fato é que o que é meu é meu, né...
Preenchi um cadastro super detalhado para poder deixar um comentário na página da moça, que espero que leia e atenda meu pedido de corrigir o equívoco. Como a postagem já é um tanto antiga (de junho deste ano), não sei se ainda é uma página ativa, nem sei se ela vai me atender...
Logo em seguida, ressabiada com o fato, busquei novamente um trecho da mesma poesia no no Google, e lá estava de novo a dita cuja utilizada sem qualquer crédito em outro lugar, na descrição do perfil da autora de outro blog. E agora cedo vi que a net está infestada de meus poemas com créditos indevidos ou, pior, sem crédito algum...
Descobri também que sou mais famosa do que pensava (rsrsrs), porque tem um monte de gente legal ilustrando seus sites com meus escritos devidamente identificados. A estes um obrigada especial, principalmente porque no meio de um dia conturbado ver que sou referência pra alguém me faz sentir muito bem. Àqueles que me mandaram e-mails preocupados em corrigir o erro eu agradeço também. Fiquei feliz com o retorno. Entretanto, há aqueles que continuam "me usando" sem sequer pagar meu cachê (rsrsrs). A esses, por favor, um pouco mais de decência.
Gente, juro que dá vontade de não escrever mais nada.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Inside


Esse sentir
por mim rotulado
pulou, saliente, pela minha janela
e se escondeu embaixo do meu travesseiro.
Deixou minha vida mais cheia,
e minha alma bem mais leve.

Amor, quem sabe, pra vida toda
ainda que muito breve.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Shaná Tová!



5770- Shaná Tová - Feliz Ano Novo
Jayme Rosenthal




Hoje, 18 de setembro de 2009, ao entardecer, assim que surgir a primeira estrela no céu, segundo o Velho Testamento, 1º dia do mês de Tishrei do calendário lunar, a comunidade judaica do mundo inteiro, começa a comemorar Rosh Hashaná, que literalmente significa "cabeça do ano" ou Ano Novo.


Rosh Hashaná é o início do Ano Novo e aniversário da criação do mundo a partir do homem. No sexto dia, do pó Deus fez o homem estático, assoprou suas narinas e deu-lhe vida. Deu-lhe também, o livre arbítrio, que não foi atribuído no primeiro dia da criação as galáxias, plantas, animais e tudo que compõe o globo terrestre. E, no sexto dia, após terminar sua obra, Deus disse: "e foi bom", descansando no Shabat (sábado) de toda obra que fizera. Coincidentemente, nesta data, a história se repete, começamos um novo ciclo de vida.


Rosh Hashaná também chamado "dia do julgamento", é comemorado em dois dias, sendo dia 18 de setembro, véspera do Ano Novo. Começamos nossas orações, demonstrando nosso arrependimento. No primeiro dia,(19) fazemos uma avaliação sobre o ano que passou, nosso comportamento e estilo de vida, ou melhor, sobre o conjunto de valores, ambições, escolhas cotidianas pessoais, interpessoais e espirituais que dirigem nossas vidas. Após refletirmos, temos condições de analisar nossas faltas voluntárias e involuntárias, pedindo perdão a DEUS, nos comprometendo a melhorar nosso relacionamento com nossos semelhantes, nossa conduta moral, social, religiosa, praticando TSEDAKÁ, que nada mais é que justiça social.


No segundo dia(20), conscientemente,após análise detalhada dos fatos, mostrando nosso sincero arrependimento, mais uma vez, prometemos mudar nossa rota de vida, sermos melhores como seres humanos,aceitando as diferenças, praticando o bem, amando e tolerando o próximo, respeitando a natureza, fazendo o possível e impossível para que os menos favorecidos sejam tratados com justiça social. E aí sim, pedimos a Deus que nos julgue, e nos inscreva no Livro da Vida, pois, somente ELE, sabe o destino de cada um, quem viverá, morrerá, terá notícias boas, más, saúde, quem ganhará na loteria, ou quem perderá sua fortuna. Aceitaremos pacificamente tudo que Deus determinar, pois é misericordioso, justo e ama suas criaturas.


Rosh Hashaná, não é apenas uma data sagrada para o judaísmo, más uma celebração universal, que enfatiza a necessidade de cada cidadão, ter plena consciência de sua missão nesta vida.


Após o segundo dia de Rosh Hashaná, quando DEUS já fez seu julgamento, temos oito dias de reflexão e aceitação, culminando em 27/28 setembro, com o Yom Kipur (Dia do Perdão) onde com a alma lavada e purificada, fazemos um jejum de 24 horas, aceitando o destino traçado por Deus, rezando muito, pois, em um mundo conturbado pela guerra, rezamos pela paz, em um mundo cheio de terror, rezamos pelo amor, em mundo onde reina a morte, rezamos pela vida. Rezamos também, para que nossos governantes consigam melhorar as condições sociais do povo brasileiro, diminuindo as diferenças, aumentando as possibilidades para que todos tenham uma vida digna.


Após as cerimônias, conscientes de nossas responsabilidades, aceitamos os desígnios de DEUS, ratificando nossa crença que ELE é justo, tudo que faz é perfeito. Nós, é que temos de aprimorar nossas vidas, para que a Paz, Amor e Fraternidade, sejam os pilares da justiça social.


Shaná Tová, Feliz Ano Novo a todos.




Jayme Rosenthal - Representante da Comunidade Judaica em Piracicaba-SP

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Destemperada

A parte de mim que ousa
usa meus desatinos
para alçar vôos mais altos.

Uma hora eu tiro a escada
e cuspo minha coragem.

Este coração escandaloso
jura que tem asas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Revelação
















Tinha gosto amargo
a intimidade revelada
diante dos meus olhos secos.

O carinho discreto
das mãos que se tocam
zomba da minha surpresa.

Nunca tive ciúme algum.

sábado, 29 de agosto de 2009

Infinito











O amor sussurrado através dos anos
abre com um sopro o zíper do vestido.
A magia perdura
e se renova
límpida e surpreendente
quando menos se espera.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Espelhos















As ânsias que se repetem
numa louca ladainha
rompem todos os limites
da minha esquizofrenia.
Meus mundos se sobrepõem
meus gestos se confundem
minhas palavras se revelam
um porto quase seguro.
Se escrevo
estou sã.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Janelas noturnas


A moça de olhos sinceros
esconde um segredo
sozinha
em silêncio acanhado.

Mas o amor que se disfarça
queima as entranhas da noite
quando a lua se renova.

Cuidado.

domingo, 2 de agosto de 2009

Doce veneno
























Colho as palavras que não quiseste tuas
e guardo-as para depois.

Depois:
aquela hora entre a tarde e a noite
quando a solidão pesa
e o vazio abraça o corpo cansado.
Quando as palavras que recusamos
fazem falta
bem como o abraço quente e perfumado
que não mais buscamos.

Essa hora triste e sem graça
que eu espero, vingativa,
atrás da porta.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Silêncio


Essa chuva que cai em mim
ensopa minhas frases feitas.

Tudo parece tão claro
e eu não consigo dizer nada!...

Às vezes a palavra é doce
mas não é suficiente.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Julho


O céu colorido de pipas
enche os olhos infantis

Embaixo dos sinais do tempo
o coração jovem sorri.

Faz sol.

domingo, 19 de julho de 2009

Amanhecer

foto: pangaroundthewolrd.blogspot.com
No dia vestido de azul
a palavra tem asas.
Ainda é cedo,
toda a tristeza repousa
sob o sol morno e agradável
do meio do mundo.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Estranha, eu?...



Eu não sou estranha. Estranha é a fome dos outros acerca da minha aparência. Sou muito mais que um reflexo distorcido no espelho. Não me vejo essa mulher de traços esquisitos que muitos vêem. Porque eu me enxergo além. Enxergo minhas muitas virtudes, e valorizo especialmente a virtude de ignorar, impassível, os risinhos e olhares assombrados por onde passo.
A alegria de acordar todo dia me faz plena. Pena de quem não vê.

____________________________________________________________________________________________________________________



E se me achar esquisita, respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar.

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

sábado, 11 de julho de 2009

Patch musical

Sábado de sol escaldante e o Media Player escarafunchando meu notebook em busca de combinações que possam traduzir esta mulher que já passou dos 30 mas não consegue sair da adolescência...
Comecei ouvindo Sharing the night together e fui subitamente transportada a outras épocas. Espinhas, insegurança, culotes, óculos e paixonites elevadas ao cubo. Tertúlias (ai, me entreguei!!), banhos demorados e expectativas elevadíssimas. Muitas. Todas as possíveis. Porque isso é adolescer. E foi tão bom!!
E enquanto o Media Player ia avançando por uma seleção no mínimo inusitada, minha adolescência transformou-se e eu cresci... Foi quando me descobri humana e passível de erros (ah, as minhas ilusões de perfeição se esvaíram de forma dolorosa e definitiva...) e por mais difícil que seja pensar a respeito, errar me tornou mais adulta e muito mais tolerante. Only human. Eu, você e todo mundo.
Aretha Franklin cantou a angústia de querer parar o tempo quando tudo fora daquele momento perdia a importância. E muitas vezes me vi, como ela, running out of time, até chegar à conclusão que o melhor mesmo era deixar de prestar atenção ao tempo, porque ele nunca seria suficiente pra viver tudo o que eu queria. Talvez seja esse o better understanding que ela queria achar, não sei.
A Cher disse que o amor machuca, mas o que seria da vida sem ele? Love hurts, sim, quando não correspondido, mas eu passei por essa fase de achar que love is just a lie. Sobrevivi. Mais que isso. Conquistei.
Faz tempo que ouvi pela primeira vez Carole King cantar So far away, mas só recentemente percebi o significado dessa falta que as pessoas nos fazem, e ela passou a fazer parte da minha seleção musical. Porque quando a saudade de tudo e de todos arrebatou esse coração escandaloso a música me tocou. Doesn’t anybody stay in one place anymore? It would be so fine to see your face in my door!... Quem nunca olhou pra traz e sentiu falta do que não volta mais (ou dos que não cruzarão outras vezes nossos caminhos?)
Don’t tell me you’re not in Love! Juro que eu estou. E por mais estranho que esse country possa parecer no meio da minha seleção, presta atenção!... Você provavelmente está in love. tanto ou mais que eu. E mesmo que esse amor não caiba na sua vida agora, estar in love é booooom demais!!
Ficar no corpo como tatuagem, Chico entrando nos meus ouvidos como bálsamo, curando as dores que todos trazemos, tatuando as palavras como eu queria tatuar as minhas, mas nem todo mundo gosta do que eu tenho pra dizer. E se eu digo mesmo assim, é porque a vida abunda em mim, transborda por meus poros e eu acabo “nem aí” pro que os outros pensam. Porque, Já que tanto faz ser ou não pra valer, como na canção que me embala agora, melhor é ser de uma vez, né?...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Saudosa


O acaso folheou as páginas
do livro que tanto reli.

Vestiu-me um meio sorriso
a palavra que pulsava.

Do sonho que se desfez
resta-me ainda o registro
daquilo que me arrebatou.

Não é mentira que eu sou feliz.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Destroços






















Do que era
nem sobrou traço
resquício
lembrança
qualquer promessa

O que foi vício
tempestade arrasadora
vendaval desgovernado
perdeu-se no caminho escuro
das muitas esperas pelo dia certo.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

No meu radinho















O que será que te excita?
Doces Cariocas

O que será que te anima?
O que será que te anima?
Bonecos de Vitalino
ou porcelanas da China?

O que será que te domina?
O que será que te domina?
Exércitos de Roma
ou a bomba de Hiroshima?

O que será que te balança?
O que será que te balança?
O xote de Don Quixote
ou o can-can que a França dança?

O que será que te adormece?
O que será que te adormece?
Mágicas no cabelo
ou um abraço que te aquece?

O que será que te excita?
O que será que te excita?
A cachaça Ipióca
ou o tinto da Periquita?

O que será que te dá vida?
O que será que te dá vida?
A saudade da chegada
ou a certeza da partida?



(E você? Sabe o que te excita?...)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Da moça de branco




















Aquilo que não é vaidade
rói as entranhas da moça de branco

Entre as vestes esvoaçantes
traz a luz suave de quem não sofre
os olhos curiosos de quem fantasia
o coração apertado de quem não pode
o frio na espinha de quem não teme

Abraça a hora secreta
sentindo os segundos escorrerem
pelas costas suadas.

Na noite de vento frio
nem tudo é palavra.
Presta atenção.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O que de fato importa...

"Não me interessa saber o que você faz para ganhar a vida. Quero saber o que você deseja ardentemente, se ousa sonhar em atender aquilo pelo qual seu coração anseia. Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você se arriscará a parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua. Quero saber se tocou o âmago de sua dor, se as traições da vida o abriram ou se você se tornou murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se pode suportar a dor, minha, ou sua, sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se você pode aceitar alegria minha ou sua; se pode dançar com abandono e deixar que o êxtase o domine até as pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizer para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que me conta é a verdade. Quero saber se consegue desapontar outra pessoa para ser autêntico consigo mesmo, se pode suportar a acusação de traição e não trair a sua alma. Quero saber se você pode ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se pode buscar a origem de sua vida na presença de Deus. quero saber se você pode viver com o fracasso, seu e meu, e ainda, à margem de um lago gritar para a lua prateada: "Posso! "Não me interessa onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se pode levantar-se após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até os ossos, e fazer o que tem que ser feito pelos filhos. Não me interessa saber quem você é e como veio parar aqui. Quero saber se você ficará comigo no centro do incêndio e não se acovardará. Não me interessa saber onde, o que, ou com quem você estudou. Quero saber o que o sustenta a partir de dentro, quando tudo mais desmorona. Quero saber se consegue ficar sozinho consigo mesmo e se, realmente, gosta da companhia que tem nos momentos vazios." (The invitation, inspirado por Sonhador da Montanha Oriah, índio ancião americano, maio de 1994)

sábado, 13 de junho de 2009

Perdida














Sigo andando nessa rua que não conheço
que casa será a minha?
quem me aguarda para jantar?
onde deixei minhas lembranças?
O carro passa por mim
alguém acena
eu não sei
se consigo chegar
não ignoro os sinais
mas não lembro o que eles significam
e por isso não temo.
Perdi tudo o que era memória
mas meu nome eu sei de cor
não guardei nenhuma história
não lembro de nenhuma dor.
Caminho nessa rua que não conheço
minha casa, eu não sei
ora lembro
ora esqueço...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Inesperada


A palavra estava guardada
e sorriu, triunfante
quando acendeu meus olhos.
As surpresas de todo dia
iluminam o meu caminho.
Eu sigo.

terça-feira, 9 de junho de 2009

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Vai passar


















A vida inundada transgride
e recusa-se a chorar a perda.

Um dia o sol seca tudo
Enquanto isso
reescrevo cada verso
com as palavras que aprendi.
Eu teimo.

Não há flores na minha janela
mas o beija-flor vem todo dia
beber a água com açúcar.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Recomeço





















A vida retoma o curso
lentamente

Busco ainda as frases soltas
as lacunas cheias de significados
as dores que escondi
entrelinhas.

De vez em quando a palavra chega
piedosa
e se aconchega na linha vazia
tentando me fazer outra vez
aquela mulher incompleta
que busca sentidos no que não existe
e escreve como se morresse
todo dia.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Uma vida sem back-up




















Não. por favor, não ria de mim. Porque pra mim essa foi uma das piores coisas que podiam ter acontecido. Hd resetado. Limpo. Cheirando a casa nova, tinta fresca, madeira recém-cortada.

E enquanto os vingativos de plantão vão tentando fazer piada com minha irresponsabilidade eu só posso lamentar. Perdi muito mais que arquivos. Eram anos de escritos, fotos, mais de 3000 músicas. Coisas que já não voltam mais...

Perdi parte da minha vida, que hoje tento aos poucos resgatar através de pen-drives e discussões. Mas não tenho muitas esperanças.
Aquele fio de cabelo branco que me caiu nas coxas e eu jurei não ser meu parece gritar comigo. Cadê a responsabilidade que deveria vir com a idade? Eu não sei... Só sei que não tenho mais nada do que escrevi. As páginas estão todas vazias...

Igual a mim...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Além do vento frio...















Este ser imperfeito
grita dentro de mim.

Não posso correr mais depressa
e os pensamentos atropelam meu silêncio.

Queria ser diferente
andar no prumo
ter a vida toda arrumada
em gavetas azuis.

Mas dos desejos de ser alguém
que marca
só consegui uma cicatriz
a enfeitar meu rosto.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

É verdade...


Não engulo a palavra
que pulsa.
Ousar também é perceber
que chega
de tentar ser...
Melhor é ser de uma vez.


Para Kiara, que mesmo sem querer desatou um nó.

Do meu silêncio













Anda em mim essa preguiça
de ser
que me impede de mexer
os sentimentos
que não me deixa ser
abusada
não me permite ver
o outro lado
e me faz parecer essa mulher
cansada.

Desses dias de silêncio
forçado
Vazios de palavras
ocos de sentido
acalento o lento desabrochar das horas
que pousam inférteis em meu ouvido.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Despedida















Não cai mais chuva
mas o vento fresco lembra
o aconchego antes da partida.
Tudo o que eu queria agora
era o arrepio que percorria o corpo
a felicidade disfarçada
no semblante de quem não ri.
O olhar faminto
indisfarçável
de cada momento
roubado.
A luz que emana
dos olhos que ousam
quer me iluminar,
mas não posso...
estou cega
outra vez...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Colcha de retalhos


Sigo emendando os retalhos
da vida que se reparte.
Pequenos pedaços de sonho
enfeitados
coloridos.
Em cada ponto
um pouco
de quem sou,
que eu mesma não sei dizer...
mas me pergunto todo dia
na esperança que a resposta
apareça nas estampas.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Shhhhh


















Silêncio.
Toda palavra adormeceu
Resta em mim essa lacuna eterna
que não preencho
não esqueço
não disfarço.
Tem horas que a felicidade é triste
e a calmaria é ilusória.
Quando não há jeito certo de dizer
eu não tento.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Claustro












Do que não revelas
eu sinto
tua vontade
de arrancar de mim
as asas
cortar meus pés
enclausurar meus devaneios
e porque não podes
ardes na febre eterna
e absoluta
do ciúme que não confessas.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

É segredo

Eu odeio essa mulher todo dia. As mudanças que ela sofreu, que vão bem mais além das finas rugas e de alguns cabelos brancos espalhados na longa cabeleira. Odeio o modo como ela se expõe, suas saias nunca abaixo dos joelhos, suas pernas bem torneadas mostrando aos outros o que eu queria só pra mim. Odeio a maneira gentil com que ela trata quem sequer conhece, o modo descuidado com que se porta. Odeio quando não me conta o que já sei, como se eu nunca fosse perceber que algumas palavras tem duplo significado e que nem sempre o mais adequado é o que ela quis usar. Odeio seus trejeitos de menina no corpo de mulher, seu sorriso condescendente, seu modo quase esnobe de dizer que sente muito, seu olhar de desdém ante minhas indagações.
Não sei quando comecei a odiá-la, só sei que em muitos dias é difícil olhá-la nos olhos, e eu viro de costas pra ela antes de dormir, pra garantir uma noite tranqüila. Mas não entendo, a mágoa que dobro e guardo noite após noite parece dissipada pela manhã, quando ela se move com delicadeza para não me despertar e eu sinto as costas ainda mornas dos beijos que ela displicentemente depositou antes de sair. Aí esse corpo cansado de retrair-se fica de súbito relaxado, e o perfume suave no travesseiro dela me desperta lentamente só pra me mostrar que ela já não está. E quando todos os fantasmas da ausência deitam ao meu lado a imagem dela perde o brilho, fazendo a dor da falta que ela me faz pulsar forte em cada canto do meu ser em agonia. O amor que eu tento jurar mas não sai da minha boca transforma-se na raiva de não saber como contê-la, e todo dia eu a odeio. É por isso.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Solidão


O amor que não aceitei
pesa nos meus ombros cansados
e desbota meus dias sem brilho nem cor.

O amor que eu não quis
arrogante
zomba de mim da janela entreaberta
enquanto eu recolho as palavras mortas
que enfeitavam as páginas amarrotadas
das declarações que um dia ela escreveu pra mim

terça-feira, 21 de abril de 2009

Das palavras de Cecília...

As poesias de Cecília Meireles sempre me acompanham, e vez por outra parecem ter sido escritas pra me descrever. Hoje, então, parece que elas gritam por mim.













Traze-me
(Cecília Meireles)

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!

sábado, 18 de abril de 2009

Alamedas


Desse chão que eu piso
nasce um pé de novidade.

Parede pintada
carro lavado
roupa nova.

Leve como a brisa fresca
rodopio em minha saia rodada
carregando pelo braço
a última dúvida:

ainda falta muito?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Quase magia...













(Para Lídia Luz)


Não são só as tuas histórias
que contas nas tuas cores
aromas, versos de lã
São as vidas entrelaçadas
que vicejam em teu olhar
e transpiram em pequenos pontos
numa alegria que seduz.
Pequenos pontos de vida
graça, beleza e luz.


Lídia é a artista que dá vida e graça a esses lindos trabalhos. Cada peça é feita com o cuidado que só uma artesã apaixonada pela beleza das cores consegue transmitir.

Veja mais em http://lidialuz.blogspot.com/

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Adeus











Respirou fundo
deu um olhar gelado
virou as costas
não olhou pra trás.
Cruzou a soleira da porta
deixando um rastro de perfume
e um buraco no meu peito.

Nunca mais
nunca mais.
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.