domingo, 28 de dezembro de 2008

Sorriso













Há este sorriso preso em mim
que não consegue sair.

Sigo tentando fingir que não me importo
nem lamento
mas há dias que ele pulsa
insistente
querendo que eu pudesse mostrar
algo além deste rosto distorcido
que eu faço de conta que não ligo
mas nem sempre consigo olhar.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Presente pra você...

Só o que tenho pra te dar
é esse rio de letras
que se encontram
e festejam o momento
abraçadas em poesia.

Leia-as com cuidado
reflita com moderação
e me ame sem limites.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Pra pensar











POEMA DE NATAL
(Vinícius de Moraes)


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Férias


Férias que se prezem
tem que ter gosto de infância
sorvete da Cairu,
raspa-raspa,
algodão-doce,
manga madura,
tapioquinha
e bolo com café.
Férias que não se esquecem
tem que ter nós dois
refazendo antigos caminhos
e morrendo de rir
de velhas histórias...

sábado, 20 de dezembro de 2008

Em casa...

Cheguei

Chove
Tudo o que é lembrança

saudade
cheira a grama molhada

Acho que eu nunca saí daqui.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Sabe sim...


Eu não sei mais escrever
ele disse
mas continua marcando o tempo
com a melodia da voz
que cala quando desconcertado
e fala de dor e tristeza mesmo quando feliz...

Eu não sei mais escrever
ele disse
e eu imagino o que faria então
com as palavras
se soubesse...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Amor
















Amor, pra mim,
se conserva guardado
quietinho
no silêncio

Se eu te amo?
É um caso
pra se pensar com calma

porque o meu amor, você sabe,
não vem da garganta

vem da alma

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Silêncio

Teu silêncio
hoje
grita comigo

Não é falta de tempo
não é cansaço
não é compromisso.

Teu silêncio
me agride
porque não me queres

e nós dois sabemos disso.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Fantasia


Despir a fantasia
até que foi fácil.

Difícil
foi não deixar
o personagem
ficar em mim

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Mais nada...


Tudo o que tenho
hoje
é esse
sentimento
que nem sei
como chamar
e que não digo
nada
só carrego
rego
e torço
pra não morrer
nem me matar

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Hoje é a vez do Ivan!

Quem está no blog da Alcilene hoje, todo chique, é o meu amigo Ivan Carlo, professor e jornalista, que entre outras tantas atividades é redator do blog Idéias de Jeca Tatu. Respeitado e reverenciado no meio cultural e acadêmico, Ivan é acima de tudo uma pessoa muito modesta e generosa. Gostei de ver, Alcilene!

Chuvas de Natal

Eu quase posso sentir os pingos de chuva sobre minha pele só ao olhar a janela. Criança entrando na adolescência, era capaz de ficar horas na ali olhando a chuva cair, sentindo o cheiro da terra molhada, misturado ao cheiro de café que vinha da cozinha. Não pensava em nada, só ficava ali, quieta, por vezes estendendo a mão pra fora para sentir a chuva na pele.
Fim de ano, chuva freqüente, bem-vinda, ansiada até. A melhor época do ano pra mim. Os filmes da Sessão da Tarde sempre tinham neve, frio, papai Noel, compras de Natal... Tudo o que eu não podia ter ali, na cidade das mangueiras, colorida pelas lindas decorações que enfeitavam as ruas, lâmpadas de todas as cores penduradas pelas árvores na frente das casas. Eu e minha irmã gostávamos de contar as árvores iluminadas que víamos pelo caminho, uma em cada janela do carro, esticando os olhos pra alcançar as árvores mais distantes, nas ruas transversais.
E em todo lugar a chuva fina caía levemente. Porque a magia do Natal em Belém não é a neve, é a chuva de todo dia, abençoada chuva, perfumada chuva. As mangueiras pesadas de tanta manga balançando seus galhos perigosamente sob o peso das muitas mangas que os moleques nem davam conta de apanhar. As pessoas passeando apressadamente no centro da cidade, dezenas de sombrinhas coloridas deixando o dia mais bonito.
Ali da janela do meu quarto eu via muito dessa agitação, e sentia os respingos da chuva quase fria que batia o ponto religiosamente no mesmo horário toda tarde, lembrando que o ciclo da vida recomeça continuamente através de tudo o que vivemos.
Cotidiano que se renova mas não se reinventa tanto a ponto de mudar a essência do que sou: mulher quase menina, na janela do quarto que já foi meu, mãos pra fora da janela sentindo a chuva e um coração aquecido, apesar do vento. Nunca me perdi tanto que não possa me reencontrar ali, cheia de saudades do que fui e coração apertado pelo que ainda serei. Chego daqui a uns dias, mãe!...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Música de hoje

A música que não me sai da cabeça hoje foi composta por Teresa Tinoco e fez muito sucesso na década de 70 na voz do Ney Matogrosso.

É uma poesia belíssima, que fala do amor que se guarda, que se cala, que se esconde, que até se nega... mas que ainda assim está lá...


Viajante

(Tereza Tinoco)

Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa,
pássaro sem asa,
rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções
nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia
A mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez
Pra ser teu talvez,
pra ser teu talvez
Mas o viajante é talvez covarde
Ou talvez seja tarde
pra gritar que arde no maior ardor
A paixão contida, retraída e nua
Correndo na sala ao te ver deitada
Ao te ver calada,
ao te ver cansada,
ao te ver no ar
Talvez esperando desse viajante
Algo que ele espera também receber
E quebrar as cercas
que insistimos tanto em nos defender
Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa,
pássaro sem asa,
rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções
nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia
A mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez
Pra ser teu talvez,
pra ser teu talvez...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Perdida

Eu era
e nem sabia.
Agora nada
me consola.

Continuo
me procurando.

Acaso você me viu?

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ausência...


Estranho...
Tantas promessas
tanto desejo
e eu aqui,
amortecida -
nem esperanças
nem lágrimas.
E esse quase nada
doloroso
me assombrando
através
da tua ausência...

Haicai


Arde o sol na cara
se à tarde a chuva não vem
ah, não é Belém!

(Ademir Pedrosa)
(aquarela de Jorge Eduardo)


Ademir Pedrosa é um dos grandes expoentes da literatura amapaense, e fez a gentileza de me mandar alguns haicais para publicação neste blog. De todos, meu preferido foi este que postei acima. Me fez lembrar o cheiro da chuva no asfalto quente, cheiro da terra molhada no jardim da casa da minha mãe. Boas lembranças...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A palavra

Tenho uma única palavra
pulsando
dentro de mim
doce como o sorriso
que eu queria dar...

Depois da ausência
que me impuseste
tua confissão humilde:
saudades.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Descobrindo...


O dia em que mais me encontro
é quando eu não me enxergo
e deixo aflorar
em mim
a louca
que baila em um tom diferente
no ritmo que lhe convém
e ri
meio moleca
como seu ouvisse no vento
todas as vozes
que cala em si.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Palavras alheias





















Imagética
(Augusto Oliveira)
Imagina só a imagem:
Diziam muitos, antigamente,
Que a alma, de quem se deixasse ser fotografado,
Era seqüestrada, confinada na fotografia.

Nos sais de prata confinei teu corpo
Porquanto eu queria, numa câmara escura,
Retratar-te com a tinta do sol
Impressionada, fixando-te às minhas tramas,
Como quem prende o tempo nos minúsculos velhos monóculos
Ou retém os risos e roupas em álbuns de família

Mas, diferente do que pensavam os antigos,
No retrato do teu corpo
Minha alma presa é que ficou impregnada!


Augusto Oliveira tem um extenso currículo, mas pra mim uma coisa importa muito mais que todos os seus títulos: ele é meu amigo. Um amigo muito querido, que tem o dom de encantar quando escreve.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Coração adormecido...

Essa calma
você deixou
quando partiu
e nem percebeu...

Agora meu coração
adormece
esquecido de sonhar.

Quem mandou?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Fora

A primeira vez que levou um fora já estava na faculdade. Adolescente bonita, saia sempre a deixar musculosas coxas à mostra, atraía olhares por onde passava. Não tinha pudores de se valer dos dotes físicos (leia-se coxas duramente esculpidas no leg press, abdome tipo tanquinho, bronzeado sempre em dia, boca carnuda e cabelos curtos sempre meio despenteados, o que também lhe dava um ar meio rebelde) para conseguir o que queria.
Dessa vez encantou-se por um amigo do seu pai, professor de matemática financeira, ar sério mas, ela pensava, certamente guardava um selvagem dentro de si, já arquitetando um plano para ficar a sós com ele. Porque todo cara com essa carinha de bom moço esconde um selvagem prestes a morrer de claustrofobia, precisando desesperadamente de alguém que o liberte.
Já antevendo os momentos ardentes que passariam em alguma sala vazia depois do horário das aulas, começou a colocar seu plano em prática. Todo dia era um tal de cruzar as pernas na frente dele, abaixar-se na mesa dele com o pretexto de tirar dúvidas (que nunca existiram), mas deixando que ele visse o início dos seus seios enquanto balbuciava uma explicação. Ah, glória... Era só uma questão de tempo. Uma quarta-feira antes do fim do semestre encontrou-o sozinho no estacionamento da faculdade. O coração disparou. Ele abriu o carro, ela entrou. Ele, estupefato. Ela, confiante. “O que aconteceu, Luíza?” “Você sabe, eu quero você. Quero muito. E sei que você também me quer”. Era isso. Tudo ou nada.
Ele sorriu, cândido. Ela desarmou-se, pasma. “O que foi? Você não me quer?” Segurando o sorriso para não ofendê-la ele respondeu: “Eu sou casado, você sabe” “Não tenho ciúmes” ela retrucou, tentando recuperar a confiança.
“Você não, mas meu marido tem” ele respondeu, antes de abrir a porta do carro para ela sair. Ofendidíssima. A primeira vez que ela levou um fora. Pelo menos não tinha sido por sua causa, pensou, já caminhando de volta para a faculdade para falar com o professor de Lingüística. Aquele sim, um selvagem...

domingo, 30 de novembro de 2008

Partida


Decisão tomada
confirmada
comunicada
acatada
(lamentada?)

mas não me convenci
de que fiz o certo.

Do que nunca terei
porque não sei
ter outra face
escolhi sentir saudade

- esperar
não me cai bem.

sábado, 29 de novembro de 2008


Eu aqui
tão só
com esse pensamento
recorrente
da ausência
da vida que pulsava
em mim

Não tenho
mais nada
agora
somos só
eu e esta dor
de não poder
voltar atrás.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Tolice


Essa certeza inabalável
que te prende
- dizer que nunca
nunca
nunca...

Tolice.

Fecha os olhos
e deixa
que eu guio
tuas mãos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Entrevista

A Alcilene Cavalcante, jornalista super conceituada aqui do Amapá, fez uma entrevista muito legal comigo. Tá lá no blog dela.

Ai, dá licença, mas hoje eu tô me achando!...

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Solidão

É dessa solidão que eu falo tanto
e tão angustiada
falo só
porque não há quem me escute
não há quem me abrace
nem há quem me segure a mão
se eu, de repente,
morrer entre as paredes desse apartamento
que já foi palco de tanta festa
e hoje é só a coxia
de uma alma que não encontrou sossego
e se recusou a partir.

Cansei

Cansei de brincar de ser poeta
dona de palavras que não me satisfazem
ou me descrevem.
Já vaguei muito
procurando pelas frases certas.

Tentei ser doce
tentei ser séria
e agora tento não tentar ser
nada além da mulher que escreve
histórias que quis viver
mas não teve coragem.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Apenas escrevo...

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

(Clarice Lispector)

Eu não tenho medo...

Eu não tenho medo
ela disse,
tentando não pensar.

Temer não é fraqueza
mas ela não sabe
e se aconchega, pequenina,
no colo da madrugada
enquanto fecha os olhos
e abraça o travesseiro
esperando, insone,
uma luz qualquer
que lhe clareie o pensamento.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Caos

Tenho uma desordem natural
que não me perturba
porque faz parte da minha essência.
Tudo tem o seu lugar no meu caos particular
e mesmo o que parece estar perdido
tem uma finalidade
um desenho próprio
um rabisco destinado a virar poesia.

Não me desfaça dos meus despojos
histórias que não terminei de contar
e que me assombram vez por outra
do meio da pilha de papéis
que enfeita minha escrivaninha.

sábado, 22 de novembro de 2008

Alquimia

Da varanda de casa eu sentia o cheiro. Temperos diferentes, ervas, caldos... O chiado das panelas sobre o fogão avisava: mamãe estava na cozinha. Encantada com a possibilidade de ajudar e assim entrar no mundo dos adultos, mesmo que com a permissão exclusiva para fazer as tarefas menores (nada de facas, objetos pontiagudos, latas, vidros...), eu me postava à porta, observando o movimento das colheres, assadeiras, travessas... Pra mim, aquele mundo morno e levemente açucarado era quase mágico. Como se o cheiro que saía das panelas e penetrava em minhas pequenas narinas fosse capaz de operar milagres. Sempre havia algo na cozinha para curar o que eu sentia: uma sopinha morna para os dias de febre ou uma gemada batida vigorosamente pelas mãos ágeis de mamãe para quando o corpo estivesse fraco (e quantas vezes fingi uma fraqueza e prostração imensas só pra ganhar aquela gemada com algumas preciosas gotas de vinho...). A cozinha pra mim era um território de descobertas. Imaginava aquelas colheres de pau, panelas, armários, potes, vasilhas ganhando vida para compor uma melodia absolutamente harmônica... E fantasiava com uma cozinha só minha, onde vidros, facas e tesouras fossem permitidos, onde o cheiro que saía das panelas não tivesse nada a ver com dobradinha ou cozido, e as crianças comessem junto com os adultos. (pois é, sou do tempo em que as crianças comiam primeiro...)
E enquanto minha mãe cortava e temperava nossas refeições eu, da porta da cozinha, sentada em meio a panelinhas de plástico e sonho, vivia a expectativa infantil e preciosa de crescer depressa e aprender também aquela alquimia, que transformava alimentos em pequenas porções de amor.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Assim disse Leminski...


isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

(Paulo Leminski)

Ah, tomara!...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Paciência

é preciso
ter paciência
tu dizes

palavras não caem
como chuva

não se deixe
molhar
impunemente

(Herbert Emanuel)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Não se engane...


Não se apaixone tão depressa
que eu sou flor que não se colhe
sou bicho que não se bole
sou pedra por lapidar.

Não mude toda a sua vida
por um ou dois dias intensos
vive-se muito em pouco tempo
mas depois...

depois não há.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Esquinas

Você não me liga
não me atende
não me pede pra ficar...
Não sabe meu sobrenome
não lembra meu telefone
não sabe de onde eu vim...

Tudo bem.
Calço meu salto quinze
e sou a mais bonita
dessa esquina da tua vida.

Depois ensino tudo
o que você precisa saber
sobre mim.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Microconto

Eu não sabia o que éramos. E assim éramos muito mais.

Sou assim...

Eu não quero
menos dores
menos febres
mais juízo
Não quero uma vida sem graça
quero os amores
mau-humores
viver tudo até o fim
aproveitar cada segundo
Ardente
Intensa
Inconstante?
É, eu sou assim...

domingo, 16 de novembro de 2008

Aniversário

Outro ano
menos um na minha conta
quantos mais antes que me arrebate
a sonolência eterna de quem não está?
Mais um monte, assim eu sei
que o melhor ainda não fiz:
tenho muito ainda a viver
mesmo que nessa corda bamba
onde vivo por um triz...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Obedeça...


Obedeça
seus instintos
rasgue minha roupa
beije minha boca
mate sua sede de mim.

Obedeça seus instintos
não se esconda...
Foi pra te fazer feliz
que eu vim.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Mea culpa...

Já perdi a conta
das besteiras
que ainda vou fazer.
Tropeço continuamente
nas minhas pedras
e não posso nem dizer
que não faço mais.

Como cega que não aprendeu
a localizar-se no escuro
tateio continuamente
em busca de palavras
que não machuquem.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Desculpas aceitas...

Desculpas aceitas
mas não espere de mim
sorrisos
que nunca os dou

Contente-se com a consideração
de ter te escutado
ainda que magoada
e ter te perdoado
ainda que não te creia.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Palavras que eu não escrevi...

ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga
ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa

(Paulo Leminski)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Dias de borboleta...



Vivo dias de borboleta

Saudades da calma
e escuridão
do casulo
destruído.

Voar também exige sacrifícios
mas depois que se aprende
nada mais pode
conter o movimento
ou descrever a sensação
de ser outra
ainda que a mesma.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Combinado...


Então tá combinado:
eu finjo que sou inocente
e você finge que não é culpado...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Misteriosa...


Essa parte da minha história
que desconheces
teme ser causa
do teu desespero
e se esconde atrás
das horas mortas
tentando não aparecer.
Essa parte de mim
que não te mostro
não está distante de ti,
mas não a alcanças
que o que percebes de mim
traço e palavra
tem a sombra do receio de perder-me
a encobrir o verdadeiro significado.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Só sei amar assim...


Quem me conhece sabe que eu sou muito intensa. Vivo cada minuto como se fosse o último. Sem tempo pra pensar muito, sem muitas neurores, vivo apenas. Quem já deu um beijinho em papai do céu e foi devolvido sabe do que eu estou falando. Qualquer hora pode ser a última. Não, isso não tem nada de dramático ou dolorido, ao contrário! Faz com que aproveitemos mais, tudo, sempre. Às vezes acho que sou meio maluca, transparente demais, curiosa demais, ou seja, INTENSA. Mas já vi que não sou só eu! Herbert Vianna escreveu essa música belíssima, que a Zizi Possi gravou. Profunda. Visceral. Linda. Fala de amor, mas não é só isso. Fala nas entrelinhas do que é sentir muito. O oposto da superficialidade que normalmente baseia as relações entre as pessoas. Medo demais, comodismo demais, preguiça de sentir.


Eu só sei amar assim

(Herbert Vianna)


Muito pra mim é nada
Tudo pra mim não basta
Eu quero cada gesto
Cada palavra
Cada segundo da sua atenção
Faça isso por mim
Leve a dor pra longe daqui
Estou cansada de ouvir que eu só sei amar errado
Estou cansada de me dividir

No que é certo no amor
Quem é que vai dizer
o que falar?
Calar?
Querer?

Eu quero absurdos
Quero amor sem fim
Quero te dizer que
Eu só sei amar assim...

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Efêmera


Ainda que transitória
como os teus dias
deixa eu marcar tua vida
com o gosto da minha boca.
Mulher de muitos sabores
múltiplas contradições
não guardo falsos pudores.
Abre os braços e me recebe
antes que esse momento
desapareça
- dono das minhas horas insones –
guarda as dores, dúvidas e desencantos
pra depois que eu te tirar
da cabeça.

Palavras...

As palavras brincam comigo
e me mantém refém
Tudo bem
eu não ligo
Faço de conta que sei
escrever nas linhas

Ninguém desconfia
que sou só alguém
que tem mania
de se perder.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Novos rumos...

Garimpar a alma em busca de novas emoções. Acordei com esse desejo estranho pulsando em meu pensamento. Varrer o que é antigo e procurar o que não conheço. Quem sabe um pouco mais de sanidade, já que meus caminhos são loucos demais pra que eu consiga viver em paz comigo mesma. Quem sabe um pouco de leveza, que a culpa pesa uma tonelada, e me sinto cansada de carregar tanto peso em mim. Talvez a sensação inédita de ser ansiada, esperada, a salvação dos dias sem graça de alguém que já não sabe sonhar. Não encontro respostas em mim, o gosto de quero mais adoçando minha boca, e um perfume febril de juventude entrando em minhas narinas. Quero sonhos novos, já vivi tempo demais colhendo amoras da macieira, chega de ilusões. Quero abraços demorados, cheiro de chuva e chá de capim marinho aquecendo minhas horas sem a presença preguiçosa de uma luz quase apagada, que falta faz um arroubo adolescente na vida de quem não lembra mais como ser feliz... Minha felicidade não chega a ser contagiante, é mais uma imagem engraçada que se forma diante dos que não têm a loucura pulsando em si. A minha loucura eu já conheço, talvez demais até. Sei onde ela me leva e sei que não vou chegar onde ela queria, talvez seja hora de trocar de sapatos. Esses eu já não quero, que não amortecem meus pesares como antes. É, garimpar a alma em busca de novas possibilidade me parece excitante hoje. Com novos mapas pode ser que eu chegue em algum lugar...

sábado, 1 de novembro de 2008

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Oração para quem não teme...


Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista

Encantos

Encantos
tantos
que nem todos os quebrantos
tiram a magia
de ser um dia
a soberana
dona de todas as horas
que baila, etérea
sobre os ponteiros
do tempo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Minha avó


Mulher de pouco estudo
mas imensa sabedoria
minha avó construía mundos
tecidos em linha e magia
Vestia princesas, cavaleiros,
camas, mesas e janelas
Minha avó tinha nas mãos
o dom da delicadeza.
Tecia com muita destreza
mundos de tanta beleza
que eu, ainda menina,
sentada aos pés da cadeira
imaginava enxergar,
na ponta de sua agulha
fagulhas da luz divina
moldando cores e linhas
botões, bordados, crochês...

Ah, minha avó, quem me dera
metade de seu encanto...
essas mãos que tateiam teclas
não sabem prender a beleza
em vestes feitas pra sonhar...

Fechar os olhos e pular...


Cega
me jogo de cabeça
no abismo dos teus braços.
Confio plenamente
nas sensações
e sorrio
- mulher de coração infantil –
ante a doce leveza
de nunca mais precisar enxergar.
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