domingo, 28 de dezembro de 2008

Sorriso













Há este sorriso preso em mim
que não consegue sair.

Sigo tentando fingir que não me importo
nem lamento
mas há dias que ele pulsa
insistente
querendo que eu pudesse mostrar
algo além deste rosto distorcido
que eu faço de conta que não ligo
mas nem sempre consigo olhar.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Presente pra você...

Só o que tenho pra te dar
é esse rio de letras
que se encontram
e festejam o momento
abraçadas em poesia.

Leia-as com cuidado
reflita com moderação
e me ame sem limites.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Pra pensar











POEMA DE NATAL
(Vinícius de Moraes)


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Férias


Férias que se prezem
tem que ter gosto de infância
sorvete da Cairu,
raspa-raspa,
algodão-doce,
manga madura,
tapioquinha
e bolo com café.
Férias que não se esquecem
tem que ter nós dois
refazendo antigos caminhos
e morrendo de rir
de velhas histórias...

sábado, 20 de dezembro de 2008

Em casa...

Cheguei

Chove
Tudo o que é lembrança

saudade
cheira a grama molhada

Acho que eu nunca saí daqui.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Sabe sim...


Eu não sei mais escrever
ele disse
mas continua marcando o tempo
com a melodia da voz
que cala quando desconcertado
e fala de dor e tristeza mesmo quando feliz...

Eu não sei mais escrever
ele disse
e eu imagino o que faria então
com as palavras
se soubesse...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Amor
















Amor, pra mim,
se conserva guardado
quietinho
no silêncio

Se eu te amo?
É um caso
pra se pensar com calma

porque o meu amor, você sabe,
não vem da garganta

vem da alma

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Silêncio

Teu silêncio
hoje
grita comigo

Não é falta de tempo
não é cansaço
não é compromisso.

Teu silêncio
me agride
porque não me queres

e nós dois sabemos disso.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Fantasia


Despir a fantasia
até que foi fácil.

Difícil
foi não deixar
o personagem
ficar em mim

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Mais nada...


Tudo o que tenho
hoje
é esse
sentimento
que nem sei
como chamar
e que não digo
nada
só carrego
rego
e torço
pra não morrer
nem me matar

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Hoje é a vez do Ivan!

Quem está no blog da Alcilene hoje, todo chique, é o meu amigo Ivan Carlo, professor e jornalista, que entre outras tantas atividades é redator do blog Idéias de Jeca Tatu. Respeitado e reverenciado no meio cultural e acadêmico, Ivan é acima de tudo uma pessoa muito modesta e generosa. Gostei de ver, Alcilene!

Chuvas de Natal

Eu quase posso sentir os pingos de chuva sobre minha pele só ao olhar a janela. Criança entrando na adolescência, era capaz de ficar horas na ali olhando a chuva cair, sentindo o cheiro da terra molhada, misturado ao cheiro de café que vinha da cozinha. Não pensava em nada, só ficava ali, quieta, por vezes estendendo a mão pra fora para sentir a chuva na pele.
Fim de ano, chuva freqüente, bem-vinda, ansiada até. A melhor época do ano pra mim. Os filmes da Sessão da Tarde sempre tinham neve, frio, papai Noel, compras de Natal... Tudo o que eu não podia ter ali, na cidade das mangueiras, colorida pelas lindas decorações que enfeitavam as ruas, lâmpadas de todas as cores penduradas pelas árvores na frente das casas. Eu e minha irmã gostávamos de contar as árvores iluminadas que víamos pelo caminho, uma em cada janela do carro, esticando os olhos pra alcançar as árvores mais distantes, nas ruas transversais.
E em todo lugar a chuva fina caía levemente. Porque a magia do Natal em Belém não é a neve, é a chuva de todo dia, abençoada chuva, perfumada chuva. As mangueiras pesadas de tanta manga balançando seus galhos perigosamente sob o peso das muitas mangas que os moleques nem davam conta de apanhar. As pessoas passeando apressadamente no centro da cidade, dezenas de sombrinhas coloridas deixando o dia mais bonito.
Ali da janela do meu quarto eu via muito dessa agitação, e sentia os respingos da chuva quase fria que batia o ponto religiosamente no mesmo horário toda tarde, lembrando que o ciclo da vida recomeça continuamente através de tudo o que vivemos.
Cotidiano que se renova mas não se reinventa tanto a ponto de mudar a essência do que sou: mulher quase menina, na janela do quarto que já foi meu, mãos pra fora da janela sentindo a chuva e um coração aquecido, apesar do vento. Nunca me perdi tanto que não possa me reencontrar ali, cheia de saudades do que fui e coração apertado pelo que ainda serei. Chego daqui a uns dias, mãe!...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Música de hoje

A música que não me sai da cabeça hoje foi composta por Teresa Tinoco e fez muito sucesso na década de 70 na voz do Ney Matogrosso.

É uma poesia belíssima, que fala do amor que se guarda, que se cala, que se esconde, que até se nega... mas que ainda assim está lá...


Viajante

(Tereza Tinoco)

Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa,
pássaro sem asa,
rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções
nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia
A mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez
Pra ser teu talvez,
pra ser teu talvez
Mas o viajante é talvez covarde
Ou talvez seja tarde
pra gritar que arde no maior ardor
A paixão contida, retraída e nua
Correndo na sala ao te ver deitada
Ao te ver calada,
ao te ver cansada,
ao te ver no ar
Talvez esperando desse viajante
Algo que ele espera também receber
E quebrar as cercas
que insistimos tanto em nos defender
Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa,
pássaro sem asa,
rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções
nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia
A mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez
Pra ser teu talvez,
pra ser teu talvez...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Perdida

Eu era
e nem sabia.
Agora nada
me consola.

Continuo
me procurando.

Acaso você me viu?

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ausência...


Estranho...
Tantas promessas
tanto desejo
e eu aqui,
amortecida -
nem esperanças
nem lágrimas.
E esse quase nada
doloroso
me assombrando
através
da tua ausência...

Haicai


Arde o sol na cara
se à tarde a chuva não vem
ah, não é Belém!

(Ademir Pedrosa)
(aquarela de Jorge Eduardo)


Ademir Pedrosa é um dos grandes expoentes da literatura amapaense, e fez a gentileza de me mandar alguns haicais para publicação neste blog. De todos, meu preferido foi este que postei acima. Me fez lembrar o cheiro da chuva no asfalto quente, cheiro da terra molhada no jardim da casa da minha mãe. Boas lembranças...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A palavra

Tenho uma única palavra
pulsando
dentro de mim
doce como o sorriso
que eu queria dar...

Depois da ausência
que me impuseste
tua confissão humilde:
saudades.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Descobrindo...


O dia em que mais me encontro
é quando eu não me enxergo
e deixo aflorar
em mim
a louca
que baila em um tom diferente
no ritmo que lhe convém
e ri
meio moleca
como seu ouvisse no vento
todas as vozes
que cala em si.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Palavras alheias





















Imagética
(Augusto Oliveira)
Imagina só a imagem:
Diziam muitos, antigamente,
Que a alma, de quem se deixasse ser fotografado,
Era seqüestrada, confinada na fotografia.

Nos sais de prata confinei teu corpo
Porquanto eu queria, numa câmara escura,
Retratar-te com a tinta do sol
Impressionada, fixando-te às minhas tramas,
Como quem prende o tempo nos minúsculos velhos monóculos
Ou retém os risos e roupas em álbuns de família

Mas, diferente do que pensavam os antigos,
No retrato do teu corpo
Minha alma presa é que ficou impregnada!


Augusto Oliveira tem um extenso currículo, mas pra mim uma coisa importa muito mais que todos os seus títulos: ele é meu amigo. Um amigo muito querido, que tem o dom de encantar quando escreve.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Coração adormecido...

Essa calma
você deixou
quando partiu
e nem percebeu...

Agora meu coração
adormece
esquecido de sonhar.

Quem mandou?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Fora

A primeira vez que levou um fora já estava na faculdade. Adolescente bonita, saia sempre a deixar musculosas coxas à mostra, atraía olhares por onde passava. Não tinha pudores de se valer dos dotes físicos (leia-se coxas duramente esculpidas no leg press, abdome tipo tanquinho, bronzeado sempre em dia, boca carnuda e cabelos curtos sempre meio despenteados, o que também lhe dava um ar meio rebelde) para conseguir o que queria.
Dessa vez encantou-se por um amigo do seu pai, professor de matemática financeira, ar sério mas, ela pensava, certamente guardava um selvagem dentro de si, já arquitetando um plano para ficar a sós com ele. Porque todo cara com essa carinha de bom moço esconde um selvagem prestes a morrer de claustrofobia, precisando desesperadamente de alguém que o liberte.
Já antevendo os momentos ardentes que passariam em alguma sala vazia depois do horário das aulas, começou a colocar seu plano em prática. Todo dia era um tal de cruzar as pernas na frente dele, abaixar-se na mesa dele com o pretexto de tirar dúvidas (que nunca existiram), mas deixando que ele visse o início dos seus seios enquanto balbuciava uma explicação. Ah, glória... Era só uma questão de tempo. Uma quarta-feira antes do fim do semestre encontrou-o sozinho no estacionamento da faculdade. O coração disparou. Ele abriu o carro, ela entrou. Ele, estupefato. Ela, confiante. “O que aconteceu, Luíza?” “Você sabe, eu quero você. Quero muito. E sei que você também me quer”. Era isso. Tudo ou nada.
Ele sorriu, cândido. Ela desarmou-se, pasma. “O que foi? Você não me quer?” Segurando o sorriso para não ofendê-la ele respondeu: “Eu sou casado, você sabe” “Não tenho ciúmes” ela retrucou, tentando recuperar a confiança.
“Você não, mas meu marido tem” ele respondeu, antes de abrir a porta do carro para ela sair. Ofendidíssima. A primeira vez que ela levou um fora. Pelo menos não tinha sido por sua causa, pensou, já caminhando de volta para a faculdade para falar com o professor de Lingüística. Aquele sim, um selvagem...
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