domingo, 31 de agosto de 2008

Palavras do coração...


Lembro dos dias de aniversário com uma nostalgia que só quem teve uma infância feliz entende. As festas começavam semanas antes, com o estoque prévio de latas de leite condensado que minha mãe ia cuidadosamente fazendo, compra após compra, para que nosso orçamento não ficasse muito comprometido.
O armário da cozinha ia ficando cada vez mais bonito, com filas de latinhas de leite, confeitos dos mais diferentes tipos e cores, forminhas coloridas que eu sabia que nós, crianças, separaríamos uma por uma na véspera da festa.
E tudo era festa. Mamãe tinha o cuidado de programar cada detalhe. Pastilheiros diferentes, como verdadeiras obras de arte. Isopor, abóboras, bonecas, tudo servia de base para aquelas pastilhas açucaradas de maracujá, as verdadeiras, que nunca mais provei desde que passaram a usar balinhas industrializadas para facilitar o trabalho. Tenho o cheiro das pastilhas agora mesmo no meu nariz: mais que cheiro de açúcar e maracujá, cheiravam a amor de mãe. Cada pastilha era enrolada e depositada no pastilheiro com reverência. O resultado era lindo!
Tinha também a mesa, que mamãe preparava à moda antiga: bolo no meio, garrafinhas devidamente vestidas com roupinhas de papelão de personagens da Disney, pratinhos para as crianças ao redor de tudo, que na hora da festinha recebiam generosas porções de arroz com galinha, que não tinha festa infantil sem um bom arroz com frango, passas, milho, batata palha, maçã e mais o que a mãe colocasse pra dar sabor.
Mas o melhor era a véspera. Quando as latinhas saiam do armário e ganhavam vida nas panelas de mamãe. Depois de arregimentar duas ou três gentis ajudantes, ela começava a misturar o leite com os mais diferentes ingredientes. E começavam a surgir pratos cheios de doces por enrolar: brigadeiros, doces de coco, moranguinhos, cajuzinhos, olhos de sogra, doces de queijo, uvinhas, casadinhos e mais o que a imaginação mandasse.
Nós, crianças, encantadas com as sobras que ficavam nas panelas, nos dividíamos entre as forminhas para separar e os confeitos para enrolar os doces. Que delícia! De vez em quando um docinho pulava do prato de confeitos direto para nossa boca. Mamãe ralhava, que não iriam sobrar doces para o dia seguinte, mas comia também. Podíamos comer os que não estavam no padrão, ou seja, pequenos demais (doces pequenos não serviam, que as pessoas iriam pensar que éramos miseráveis), grandes demais (que era falta de educação servir doces que enchessem demais a boca dos convidados), enfim... qualquer motivo servia para enfiarmos apressadamente um espécime rejeitado em nossa boca gulosa.
E no dia seguinte, a mágica: acordávamos com a casa cheirando a festa. Era perfume de pudim assando no forno com quadradinhos de maracujá sendo cortados na cozinha, peru assando no forno para ser delicadamente desfiado em seguida... Ir para a escola era um sacrifício, as horas não passavam nunca!
E à noite, mamãe acabada de cansaço, regozijava-se ante cada elogio recebido e, como uma rainha, desfilava bandejas e mais bandejas de doces, salgados, comidas com um orgulho que não passava desapercebido. O cansaço não lhe deixava feia, ao contrário, dava-lhe um ar de vitória, um carinho imenso acompanhando cada saquinho de brinde que saía,cobiçado por crianças e adultos.
Hoje, mais crescida, me vejo enrolando doces em vésperas de aniversário com minhas filhas, sentindo o cheiro dos doces de mamãe, numa saudade gigantesca de separar forminhas, brigar pelas raspas de panela e apagar as velas de aniversário que ela acendia pra mim.
Talvez eu nunca tenha dito, talvez nunca tenho tido sequer a consciência, mas os melhores dias da minha vida foram passados numa cozinha quente, açúcar grudado na roupa, ao lado de minha mãe.

sábado, 30 de agosto de 2008

Nó Cego



Nó Cego
(Cacaso)

"O amor do jeito que eu amo
é estação de viagem
não sei pra onde nos vamos
não sei se tem outra margem
O amor do jeito que eu chamo
espalha medo e coragem.

O amor do jeito que eu sinto
é um bater de pandeiro
é um cachorro faminto
é um demônio faceiro
O amor do jeito que eu minto
descobre o meu desespero.

Amargo feito nó cego
escuridão passageira
O amor do jeito que eu rego
renasce numa fogueira.

O amor do jeito que eu vejo
é uma estrela cadente
a perdição do desejo
a solidão da semente
O amor do jeito que eu beijo
se perde completamente."

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Palavras que me inspiram...

"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo.

Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros.

O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado. "

Rubem Alves

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Buscando o equilíbrio


Muitos de meus caminhos são obscuros, e não sei ao certo onde vou parar. Sigo sem pensar muito no que me aguarda, sentindo cada uma das tábuas da ponte que range sob meus pés. Sem saber o que me espera do outro lado só posso me concentrar no momento presente. O único momento que pode sofrer minha intervenção. Alguns dias me descubro assim, impotente. Não posso lutar contra o que desconheço. Aceito assim a limitação que não desejo, não espero, mas que me ensina muito mais que o poder de mudar. Os limites também me fazem bem.

Professora


Quando entro em sala
noite após noite
me deparo com gente
de toda sorte.
Tanta gente
que não sabe ainda
que passa e me deixa
um pouco de si neste caminho longo
e leva consigo uma de minhas faces
- a que mais admiro, lapido, festejo.
Ensinar não ensino
mas brinco de ser
a professora que ficou na brincadeira da infância:
óculos, caderno, giz, batom vermelho
e abraço caloroso.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Palavras que não são minhas

Atire a primeira pedra quem nunca sentiu tanta falta de alguém desse jeito:

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é umdos se ntimentos mais urgentes que se tem na vida."
(Clarice Lispector)





Tatuagem


Sou fã incondicional de Chico Buarque. Cresci no meio dos discos de meu pai (veja como a pessoa entrega fácil a idade: sou do tempo dos discos...), e algumas músicas me marcaram profundamente. Tatuagem é uma delas. A sensualidade das palavras do Chico me encantam. Daí um dia aproveitei e fiz uma apresentação para tentar agregar imagens àquelas palavras que não precisam de qualquer explicação. Aqui está o link para baixar o arquivo (Powerpoint versão 2007).

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Náufrago



















Não te quero já
Espera um pouco mais
Quero saborear cada segundo
antes que me acabe
este momento
Quero esperar até que chegue
o instante em que não poderei mais
e mergulharei então nos teus braços
como um náufrago que te encontra,
restos do que já foi navio,
e se agarra a ti como se nada
nada mais tivesse significado.
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