quinta-feira, 16 de junho de 2011

Penso que posso tudo...




















 
Penso que posso tudo
e sorrio encantada
com o vento que agita
meus cabelos curtos.
Posso sentir o amor
nas minhas veias
aquecendo meu ser
imperfeito.
Penso que posso tudo.
Mas espero
comportada.

Nem me reconheço mais.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eu tenho medo...




















Eu tenho medo de enlouquecer
soltar as amarras da civilidade
e me deixar levar pela pulsação acelerada
dos anseios que me apertam o estômago
e dilaceram minhas certezas.

Já não sei se vou rir disso tudo
mas enquanto os dias imperfeitos correm
imagino que a paz que procuro seja morna
e suave
e chuvosa.

Ainda resisto.

sábado, 16 de abril de 2011

Semeando




















Insone
Semeio lágrimas
na esperança adolescente
que elas floresçam poesia.
Amanhã, quem sabe
haja chuva
pra fertilizar o sentimento
e fazê-lo brotar
palavra
que ruminarei, insistente
até me satisfazer
poeta.

sábado, 9 de abril de 2011

Palavras de outras penas


QUANDO EU MORRI


RUBEN BEMERGUY

Era a última quarta-feira do ano e chovia muito. Eu suava e mantinha uma permanente sensação de palidez. Também senti que o ar me era escasso e ofeguei muitas vezes. Nas vezes anteriores, em que o ar também faltou, eu me socorria dos cisnes brancos. Como eles, eu abria minhas asas e desfiava o vento pouco a pouco até erguer-me o suficiente para atravessar a privação de viver sem ar. Não era um exercício simples, mas ter aprendido com os Cisnes foi decisivo para minha sobrevivência até a última quarta-feira do ano.

Ai, próximo às cinco horas da tarde, eu sentei em uma cadeira de balanço disposta no pátio descoberto da casa. Ali, já não mais tive forças para voltar a abrir minhas asas. Então, confiei na agitada atmosfera que acompanhava a chuva que me marinava justamente para compensar a falta que o ar fazia. Não lembro tudo. Mas Levemente eu perdia a autoridade sobre meu corpo que se inclinava para o lado esquerdo e uma dor lancinante se derramou em meu peito. Fui ao chão, em morte tardia, como há muito pressentido.

O tempo imprevisto adivinhou a morte e, aflito, demorou águas em meu corpo. O vento, já desnecessário, soprava um hálito viril em minha boca como se ainda possível guincha-me a vida. Um transitório clarão de relâmpago às vezes iluminava meu maxilar inferior caído e os olhos arregalados, como desejassem alguém que, por indulgência, os fechasse, desassustando a morte. Desejo foi algo sempre presente em minha vida, agora morta, designadamente o desejo de morrer.

Essa não foi a primeira vez em que morri. Aliás, tive muitas mortes. Algumas atrozes, difíceis de lembrar. Em todas, entretanto, eu estava amando e é por isso que sempre receei não morrer mais. Morri em segredo. No escuro do quarto. Rés a solidão. No sábado que foi. No domingo que vem. No sopro do rio que morreu no mar, eu morri. Tantas foram as vezes em que morri que por aqui pouco se ouviu falar de dor. Morri a morte que dura. Faz feliz a criatura e, às vezes, imortaliza o amor.

Mas agora era diferente. Eu estava diante de minha última morte. Não haveria outra, como dantes. Assim, mesmo não sendo um iniciante em morte, tive a oportunidade de senti-la mais profunda e definitivamente. Ela, sem cerimônia, vestiu-me de noivo. Deixou que suas tranças incolores deitassem em meu colo e pôs-se a ciciar em meus ouvidos palavras que acasalam. Recém nascidos, ziguezagueamos em fina lã até tecermos um idioma famélico de corpo e gozo. Lembro também de quase gemidos assíduos e um turvo leite gravitando em gotas e em bocas.

Aprendi muito com a morte. Aprendi, por exemplo, que existem pelo menos duas coisas que não se pode deixar de fazer depois de morrer. Uma, é passar em revista a cidade, inspecioná-la, acariciá-la nos extremos, inconfidenciar todos os traços da vida. A outra é secar as lágrimas e as corizas dos rios. Tristeza não é a consequência lógica da morte. Pelo menos da minha morte. A morte que morri estimula a vida, às vezes surda, noutras ouvida. A morte e a poesia andam tão perto, bem dizer prosa e verso. Vida. Foi assim, quando eu morri.


Ruben Bemerguy é um amigo que eu descobri escritor quase por acaso. Talentoso e discreto, resistiu um pouco à ideia de mostrar-me seus escritos. E eu não resisti a trazê-los pra cá...

quarta-feira, 23 de março de 2011

Recomeçar




















Eu penso em recomeçar
acender velhas chamas
reler palavras esquecidas
achar motivos pra rir à toa
me deixar levar...

Eu penso no que não passou
(apesar de passado)
e olho, saudosa,
no espelho muito sincero.

Ainda dá tempo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Carpe diem















Encaracolados sóis entre meus dedos
pendem da cabecinha inocente
que aconchega os medos e dúvidas
no meu farto colo de mãe.

Queria congelar o tempo
pra reter em meus longos braços
os abraços que não me dará
na adolescência.
Mas meu relógio
inclemente
Recusa-se a parar.

Resta-me o sorriso franco
de quem sabe que o tempo corre.
Eu aproveito.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Finally

















A palavra que me foge há tanto tempo

amanheceu grudada à face pálida,

emaranhada às muitas lágrimas já secas.

Abriu a janela dos meus inúmeros sonhos

descortinando um horizonte ensolarado:

FELIZ.



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Calo











O talento que eu sonhei ter
diluiu-se nas muitas histórias
mal-contadas
que um dia eu escrevi
sonhadora
pra te impressionar.
Achava que sabia escrever
mas hoje sei
entristecida
que minha palavra trêmula
nunca encontrou o caminho.
Calo.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Distância




















O encanto desaparece
em silêncio.

As palavras
que já provocaram incêndios
e vendavais
já não são mais que rabiscos
que a vida transformou em poesia
um dia.

domingo, 21 de novembro de 2010

Saudade








 







Essa saudade de molhar os olhos
é úmida como janeiro
refrescante como a chuva que cai na tarde morna
perfumada como o caminho que leva à ponte
que liga passado e presente sem perceber.

Essa saudade
que é grande mas não oprime
colore meus olhos como as lâmpadas
das árvores enfeitadas
que contávamos da janela do carro
na infância que nunca saiu de mim.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Palavras que eu guardei


Estou sob mim mesma

esperando que me desnudes

camada após camada

e enxergues meu íntimo

afoito e infantil

enquanto me liberto

plena

e me jogo

inteira

em ti.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

À margem
















Não me deixe esquecer que não tenho medo
que às vezes a memória engana,
me tremem as pernas e a fala hesita
e eu penso que devo parar.
Olho através da vidraça molhada
tentando achar o que dizem que sou.
Mas não há qualquer traço das muitas cores
que eu teci pra encantar meus dias
e pesa nos meus ombros uma vontade de me encolher.
Enquanto isso olho e penso e calo e espero.
até que eu consiga ver que há em mim
muitas mais que eu mesma.
A vida anda em preto e branco...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Assombro












Meu nome doce
dança na tua boca suja
entre uma carícia e um verso
sussurrado
pra me iludir.
O timbre grave
grava em mim o assombro
de pertencer assim
tão descabida
descabelada
desinibida
a alguém que não sei quem é.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Noturna

Eu não me basto
e oscilo entre a lucidez
e os sonhos confusos
onde mergulho
insaciável
em busca do que já tenho.
Eu mesma.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dia de...















Era dia de nunca mais.
Ensaiei mil frases
pra dizer que era o fim.
Palavras pra me convencer
que não havia mais espaço em mim
pra tantas alegorias.

Ela soltou os cabelos antes de me abraçar
e o que eu tinha pra dizer
perdeu-se nos cachos avermelhados
da mulher que incendiava minhas certezas todas.

Nunca mais faço planos.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Insight















Tinha o dom do amor
na ponta dos dedos
e usava
lasciva
enquanto a tarde escorria
morna
no sofá macio.

Benditas as mulheres apaixonadas
por si mesmas.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Desistir?...


Desistir?

Eu já pensei seriamente nisso,
mas nunca me levei realmente a sério.
É que tem mais chão nos meus olhos
do que cansaço nas minhas pernas,
mais esperança nos meus passos
do que tristeza nos meus ombros,
mais estrada no meu coração
do que medo na minha cabeça.

*Cora Coralina*

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ousadia





















Meus dedos longos
enlaçam teus medos
e aquecem tua noite.

Sei o que quero.
E fujo dos avisos de perigo
e das placas de advertência.

Depois eu pago as multas.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Entardecer















Escuto os sons na tarde quente
embalando minha solidão.
Corro dentro de mim mesma
recusando as velhas certezas
e repensando meus gostos musicais:

Nada tem som mais agradável
que a música que fazes
ao dizer meu nome.
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