quinta-feira, 14 de outubro de 2010

À margem
















Não me deixe esquecer que não tenho medo
que às vezes a memória engana,
me tremem as pernas e a fala hesita
e eu penso que devo parar.
Olho através da vidraça molhada
tentando achar o que dizem que sou.
Mas não há qualquer traço das muitas cores
que eu teci pra encantar meus dias
e pesa nos meus ombros uma vontade de me encolher.
Enquanto isso olho e penso e calo e espero.
até que eu consiga ver que há em mim
muitas mais que eu mesma.
A vida anda em preto e branco...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Assombro












Meu nome doce
dança na tua boca suja
entre uma carícia e um verso
sussurrado
pra me iludir.
O timbre grave
grava em mim o assombro
de pertencer assim
tão descabida
descabelada
desinibida
a alguém que não sei quem é.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Noturna

Eu não me basto
e oscilo entre a lucidez
e os sonhos confusos
onde mergulho
insaciável
em busca do que já tenho.
Eu mesma.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dia de...















Era dia de nunca mais.
Ensaiei mil frases
pra dizer que era o fim.
Palavras pra me convencer
que não havia mais espaço em mim
pra tantas alegorias.

Ela soltou os cabelos antes de me abraçar
e o que eu tinha pra dizer
perdeu-se nos cachos avermelhados
da mulher que incendiava minhas certezas todas.

Nunca mais faço planos.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Insight















Tinha o dom do amor
na ponta dos dedos
e usava
lasciva
enquanto a tarde escorria
morna
no sofá macio.

Benditas as mulheres apaixonadas
por si mesmas.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Desistir?...


Desistir?

Eu já pensei seriamente nisso,
mas nunca me levei realmente a sério.
É que tem mais chão nos meus olhos
do que cansaço nas minhas pernas,
mais esperança nos meus passos
do que tristeza nos meus ombros,
mais estrada no meu coração
do que medo na minha cabeça.

*Cora Coralina*

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ousadia





















Meus dedos longos
enlaçam teus medos
e aquecem tua noite.

Sei o que quero.
E fujo dos avisos de perigo
e das placas de advertência.

Depois eu pago as multas.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Entardecer















Escuto os sons na tarde quente
embalando minha solidão.
Corro dentro de mim mesma
recusando as velhas certezas
e repensando meus gostos musicais:

Nada tem som mais agradável
que a música que fazes
ao dizer meu nome.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Espera















O relógio parece zombar
do meu desespero mudo.

Durmo
acordo
durmo
acordo
mas não entro num acordo
com a impaciência que me consome.

As respostas não estão em mim
dessa vez.

sábado, 7 de agosto de 2010

Silêncio















Eu não quero dormir
e encho a madrugada com minha indiferença
pra te castigar.

Sentada na cama enorme
aconchego minha tristeza
no som longo e inesperado
do silêncio.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Fome





















Consumido pela fome
inesperada
afogas tua boca
em meu pescoço
enquanto as palavras escorrem
na madrugada quente
procurando algum sentido.

Não tem.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Standing





















Encontro o encanto escondido
nas dobras dos meus lençóis.

Ainda que em outros tons
a música enche novamente a madrugada.

O tempo não leva tudo
mas leva tempo até achar
o caminho de volta.

Além de palavras
traço novos mapas.
Não posso mais me perder.

sábado, 19 de junho de 2010

Atrevida...





















Tento ouvir o som das palavras soltas
(aquelas que não estão nas tuas frases feitas)
Tento ouvir o que não falas
e maldigo minha pouca audição
pra meias palavras...

Mas num súbito descuido da palavra muda
enxergo as entrelinhas do que não me dizes
e num rompante de atrevimento
calo o resto das minhas dúvidas na tua boca.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Encontro

















Um querer desesperado
apertou as mãos geladas
da moça que não sabia
se corria
se ficava
se esquecia

Um querer indescritível
fechou os olhos do moço
pra toda e qualquer resistência

A queixa silenciosa
da distância entre os dois corpos
desfez-se rapidamente.

A noite quente
de céu nublado
justificava toda ousadia.
A pressa, envergonhada,
diluiu-se na chuva fina.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Coragem















Não temer é mais que não sentir o medo
é acalentar esse medo de mansinho
pra que ele não sofra
com minha lucidez.

É saber que minha presença permanece
em mim e em tudo que me cerca
mesmo quando já não estou.

E quando eu não mais estiver
inconsolada pelo que não tem jeito
é porque estou pronta.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Às vezes...


Perco a conta dos minutos insones

olhando pra cima

no quarto escuro


Assombrada pelo espelho

avisto no alto da madrugada

o fundo do poço.

sábado, 12 de junho de 2010

Sinais




















Gosto de olhar as marcas
roxas
do amor sôfrego
e descontrolado
impresso em meus braços
pescoço
e entre minhas coxas.
Sinais do que não cabe
nos minutos roubados
de quem acha que tem tudo
mas não tem mais
do que parte.
Por sorte.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Mata-me

Mata-me aos poucos
nesse abraço incontido
escondido
nas horas menos visíveis.
Rasga-me a blusa
saliente
com a fome que guardas
pra quando eu chegar.
Mata-me devagar
que eu ainda quero morder-te
reter o gosto da tua pele em mim
e marcar-te a carne com minha imprudência.
Beija-me com urgência
enquanto tentas fundir meu corpo
ao corpo que já não se sabe se teu
se meu.
Mata-me então
antes que eu sinta medo
e guarda em ti
em silêncio eterno
o que deve permanecer
segredo.

sábado, 13 de março de 2010

Só













Percebo novos sinais do tempo
diante do espelho mudo.
Olho incerta a nova ruga,
torcendo que ela não esteja
mas está.

Na tentativa de manter-me sã
encho a cabeça de lembranças.
Histórias muitas que eu não sei contar
e se acumulam
cristalinas
entre um fio e outro de cabelo branco.

Espelhos e paredes não me fazem falta
mas eu moro só.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Arisca















Onde a palavra não cabe
fica o cheiro doce do silêncio
que enlaça o segundo de hesitação.
Eu tento articular a frase esperada
mas olho os olhos do espelho
e suspiro.
Nunca estou farta
mas às vezes espero novos sinais
pra saber que é a hora.
E estoco pensamentos doces
na tentativa de não enlouquecer.
Eu calo, paro, espero, fico
mas não durmo nunca
no caminho.
Sozinha.
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