quarta-feira, 17 de março de 2010

Mata-me

Mata-me aos poucos
nesse abraço incontido
escondido
nas horas menos visíveis.
Rasga-me a blusa
saliente
com a fome que guardas
pra quando eu chegar.
Mata-me devagar
que eu ainda quero morder-te
reter o gosto da tua pele em mim
e marcar-te a carne com minha imprudência.
Beija-me com urgência
enquanto tentas fundir meu corpo
ao corpo que já não se sabe se teu
se meu.
Mata-me então
antes que eu sinta medo
e guarda em ti
em silêncio eterno
o que deve permanecer
segredo.

sábado, 13 de março de 2010

Só













Percebo novos sinais do tempo
diante do espelho mudo.
Olho incerta a nova ruga,
torcendo que ela não esteja
mas está.

Na tentativa de manter-me sã
encho a cabeça de lembranças.
Histórias muitas que eu não sei contar
e se acumulam
cristalinas
entre um fio e outro de cabelo branco.

Espelhos e paredes não me fazem falta
mas eu moro só.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Arisca















Onde a palavra não cabe
fica o cheiro doce do silêncio
que enlaça o segundo de hesitação.
Eu tento articular a frase esperada
mas olho os olhos do espelho
e suspiro.
Nunca estou farta
mas às vezes espero novos sinais
pra saber que é a hora.
E estoco pensamentos doces
na tentativa de não enlouquecer.
Eu calo, paro, espero, fico
mas não durmo nunca
no caminho.
Sozinha.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Fantasia





















Escondida de mim mesma
visto as asas da libélula
e finjo que sei bailar.
Misturada a outras tantas
tintas de outras cores
cheiros de outras flores
canções que eu não sei cantar,
rodopio leve e lépida
entre um suspiro e um arquejo.
Travestida ou camuflada?
Vestida ou fantasiada?
Mentira séria ou inventada?
Eu não sei,
mas não faz mal...
Melhor do que a fantasia
é poder despir-se dela
no final
de todo dia.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Rainy Friday





















E porque os dias arrastam as infelicidades todas
um meio sorriso brota de novo
na boca que quer calar
mas não sabe.

A chuva lavou as calçadas
e deixou um cheiro de infância
na manhã de sexta-feira.
A palavra sossega,
desnecessária.
Estou bem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Encantos


A palavra vestida de roupas de festa
tingiu de cor cintilante
o início da madrugada.

Imagens de outras danças
emprestavam frescor
ao meu rosto rubro.

A mão enfiada no bolso
pra não mexer nos meus cabelos
denunciava a intenção guardada.

Se eu pudesse tinha sorrido.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Segredos















Pego as palavras da tua boca
com a sofreguidão de quem anseia
pela voz encolhida em sussurro.
Ouço encantada cada palavra
e guardo, possessiva,
o arrepio silencioso que me percorre
enquanto as frases se juntam
como movidas por alguma magia.

Segredos são fábricas de poesia.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Vertigem















A vela que ilumina o corpo
reflete no copo alto
uma chama avermelhada

Não tarda a ver miragens
na água que quase brilha:

O homem que pulou da borda
no fundo do copo d’água
entrega os últimos suspiros
à moça que olha de fora.

O telefone nem toca
mas eu escuto a voz que berra.

- Me esquece, pequena.
Não sei.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Parágrafos














Leio e releio
as palavras plantadas ao acaso
procurando algum sinal.

Mal humorada
tomo um café
sacudo o livro,
discretamente.
Quem sabe a persistência infantil
mostre a chave das entrelinhas
pra que eu possa finalmente
dizer que entendo.

Mas lá no fundo
eu acho
que todas as pistas eram falsas.

Ninguém matou ninguém.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Profecia
















Estava escrito
que eu derrubaria tuas defesas
e te tornaria cativo
dominado pelo calor desse incêndio
que arde sem trégua
em mim.

Estava escrito
que eu acenderia teu caminho
com as palavras que proferi por ti
enquanto não te sabias
meu.

Estava escrito que dirias meu nome
embebido em desejo e culpa
pelo que não caberia mais
em ti.

Todo destino traçado
esperando esse encontro.
Mas eu me atrasei...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Insone





















Minhas mãos pálidas
percorrem o caminho conhecido
sem se deter.
Mesmo quando eu não quero
moldar-te
morder-te
algo me puxa em direção às costas
às coxas
à toa
me debato.
Minhas unhas vermelhas sabem
como tatuar essas tardes
nas tuas noites insones.

Dormir é para os fracos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Não sabia...















Não sabia anoitecer em paz
e remexia as palavras secas
em busca de uma que acalentasse.

Nuvens demais sobre a lua
e nenhuma claridade no quarto
enorme.

Toda a treva armazenada no peito
cheio de cicatrizes.
Mas não tinha medo.

Só não sorria.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Inquietude



















Inquieta
reviro as palavras guardadas
em busca do que foi dito.
Esse tempo parado
estranho
sopra em mim um vento frio
que percorre meus receios
tentando me mostrar que já não estou.
Mas eu não quero crer que tenha ouvido
ou visto
não lembro
se ainda tenho rumo,
e mesmo revirando todas as palavras
não encontro nada
que me acomode.
Nasci pra não ser
mas sou.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Palavra




















Eu sangro toda palavra
nessa ânsia verborrágica
de dar nome a tudo.

A palpitação dolorosa
de não poder nominar
não estanca minha sangria.

Sigo testando as combinações
mudando os móveis de lugar
cortando os cabelos
evitando os espelhos
e fingindo alegria.
Nenhuma frase me basta.
Eu calo.

Exangue.
Exausta.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tormenta















Já afoguei em desejo as tuas virtudes
já mergulhei tuas verdades nos meus lábios
e causei-te o riso desvairado dos enlouquecidos de amor.
Agora trago seca em minhas mãos pequenas
a raiz de todo sentimento
e me deixo queimar pelo fogo que consome lento
a vastidão seca do que já teve viço.
Nenhuma lágrima ousa tentar apagar esse ardor
de não ser mais
eu que já fui
ousada demais pra tentar fingir inocência
ou confiar nas nuvens baixas.
Nem sempre chove.

sábado, 14 de novembro de 2009

Tempo





















Remexo meus velhos guardados
e encontro a jovem que fui
sorrindo amarelo em 3 x 4.
Ah, eu não sei o que aconteceu
mas não me reconheço nas palavras alegres
das agendas que um dia escrevi.
Sinais da idade, minha mãe diria.
Não sei.
Sei que o tempo me deforma o corpo
me risca o rosto
me cansa as pernas
mas não me convence
que aquela no espelho sou eu.

domingo, 1 de novembro de 2009

Madura




















Quando eu fecho os olhos
que não enxergam além das cercas do meu jardim
tenho a impressão que o dia se faz noite
e um vento frio atravessa meu corpo banhado
provocando um arrepio comprido
que começa na nuca
e eu nem sei onde termina.

Muitos anos atrás eu me achava madura
mas não fazia idéia do que era estar pronta.
Agora eu estou.

Ou quase.

sábado, 31 de outubro de 2009

Desordem




















O sol adentra o quarto em desordem
e penetra minhas pernas semi abertas
como quem tem intimidade
e tempo.
Há tempos que eu me derreto
lava pura, magma, fogo
e queimo tudo à minha volta.
Como agora.
Abro um pouco mais as pernas
pra sentir a quentura quase tímida
e úmida
da manhã de sol.
E lembro de coisas
ou imagino
não sei, a idade me confunde
e me aperfeiçoa.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Reencontro















A ânsia desgovernada
prolonga o abraço suado.
Os braços que apertam forte
enlaçam os anos de ausência
com a sede desesperada
dos que voltam do exílio.
Não há como negar a saudade
que escorre na face corada
de quem se achava perdido.

As palavras caíram no caminho.

sábado, 10 de outubro de 2009

Madrugada






















O amor desesperado
rasga as vestes da madrugada sonolenta
toma pra si, rancoroso e embriagado
a mulher que não pode conter.
Ela parece não querer
mas não importa:
a fome de possuir é maior que o medo
E ela há de pensar que foi um sonho
e consolar-se amanhã nos braços lanhados
do amor que dilacera-se em segredo.
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