quinta-feira, 9 de julho de 2009

Saudosa


O acaso folheou as páginas
do livro que tanto reli.

Vestiu-me um meio sorriso
a palavra que pulsava.

Do sonho que se desfez
resta-me ainda o registro
daquilo que me arrebatou.

Não é mentira que eu sou feliz.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Destroços






















Do que era
nem sobrou traço
resquício
lembrança
qualquer promessa

O que foi vício
tempestade arrasadora
vendaval desgovernado
perdeu-se no caminho escuro
das muitas esperas pelo dia certo.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

No meu radinho















O que será que te excita?
Doces Cariocas

O que será que te anima?
O que será que te anima?
Bonecos de Vitalino
ou porcelanas da China?

O que será que te domina?
O que será que te domina?
Exércitos de Roma
ou a bomba de Hiroshima?

O que será que te balança?
O que será que te balança?
O xote de Don Quixote
ou o can-can que a França dança?

O que será que te adormece?
O que será que te adormece?
Mágicas no cabelo
ou um abraço que te aquece?

O que será que te excita?
O que será que te excita?
A cachaça Ipióca
ou o tinto da Periquita?

O que será que te dá vida?
O que será que te dá vida?
A saudade da chegada
ou a certeza da partida?



(E você? Sabe o que te excita?...)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Da moça de branco




















Aquilo que não é vaidade
rói as entranhas da moça de branco

Entre as vestes esvoaçantes
traz a luz suave de quem não sofre
os olhos curiosos de quem fantasia
o coração apertado de quem não pode
o frio na espinha de quem não teme

Abraça a hora secreta
sentindo os segundos escorrerem
pelas costas suadas.

Na noite de vento frio
nem tudo é palavra.
Presta atenção.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O que de fato importa...

"Não me interessa saber o que você faz para ganhar a vida. Quero saber o que você deseja ardentemente, se ousa sonhar em atender aquilo pelo qual seu coração anseia. Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você se arriscará a parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua. Quero saber se tocou o âmago de sua dor, se as traições da vida o abriram ou se você se tornou murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se pode suportar a dor, minha, ou sua, sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se você pode aceitar alegria minha ou sua; se pode dançar com abandono e deixar que o êxtase o domine até as pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizer para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que me conta é a verdade. Quero saber se consegue desapontar outra pessoa para ser autêntico consigo mesmo, se pode suportar a acusação de traição e não trair a sua alma. Quero saber se você pode ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se pode buscar a origem de sua vida na presença de Deus. quero saber se você pode viver com o fracasso, seu e meu, e ainda, à margem de um lago gritar para a lua prateada: "Posso! "Não me interessa onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se pode levantar-se após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até os ossos, e fazer o que tem que ser feito pelos filhos. Não me interessa saber quem você é e como veio parar aqui. Quero saber se você ficará comigo no centro do incêndio e não se acovardará. Não me interessa saber onde, o que, ou com quem você estudou. Quero saber o que o sustenta a partir de dentro, quando tudo mais desmorona. Quero saber se consegue ficar sozinho consigo mesmo e se, realmente, gosta da companhia que tem nos momentos vazios." (The invitation, inspirado por Sonhador da Montanha Oriah, índio ancião americano, maio de 1994)

sábado, 13 de junho de 2009

Perdida














Sigo andando nessa rua que não conheço
que casa será a minha?
quem me aguarda para jantar?
onde deixei minhas lembranças?
O carro passa por mim
alguém acena
eu não sei
se consigo chegar
não ignoro os sinais
mas não lembro o que eles significam
e por isso não temo.
Perdi tudo o que era memória
mas meu nome eu sei de cor
não guardei nenhuma história
não lembro de nenhuma dor.
Caminho nessa rua que não conheço
minha casa, eu não sei
ora lembro
ora esqueço...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Inesperada


A palavra estava guardada
e sorriu, triunfante
quando acendeu meus olhos.
As surpresas de todo dia
iluminam o meu caminho.
Eu sigo.

terça-feira, 9 de junho de 2009

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Vai passar


















A vida inundada transgride
e recusa-se a chorar a perda.

Um dia o sol seca tudo
Enquanto isso
reescrevo cada verso
com as palavras que aprendi.
Eu teimo.

Não há flores na minha janela
mas o beija-flor vem todo dia
beber a água com açúcar.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Recomeço





















A vida retoma o curso
lentamente

Busco ainda as frases soltas
as lacunas cheias de significados
as dores que escondi
entrelinhas.

De vez em quando a palavra chega
piedosa
e se aconchega na linha vazia
tentando me fazer outra vez
aquela mulher incompleta
que busca sentidos no que não existe
e escreve como se morresse
todo dia.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Uma vida sem back-up




















Não. por favor, não ria de mim. Porque pra mim essa foi uma das piores coisas que podiam ter acontecido. Hd resetado. Limpo. Cheirando a casa nova, tinta fresca, madeira recém-cortada.

E enquanto os vingativos de plantão vão tentando fazer piada com minha irresponsabilidade eu só posso lamentar. Perdi muito mais que arquivos. Eram anos de escritos, fotos, mais de 3000 músicas. Coisas que já não voltam mais...

Perdi parte da minha vida, que hoje tento aos poucos resgatar através de pen-drives e discussões. Mas não tenho muitas esperanças.
Aquele fio de cabelo branco que me caiu nas coxas e eu jurei não ser meu parece gritar comigo. Cadê a responsabilidade que deveria vir com a idade? Eu não sei... Só sei que não tenho mais nada do que escrevi. As páginas estão todas vazias...

Igual a mim...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Além do vento frio...















Este ser imperfeito
grita dentro de mim.

Não posso correr mais depressa
e os pensamentos atropelam meu silêncio.

Queria ser diferente
andar no prumo
ter a vida toda arrumada
em gavetas azuis.

Mas dos desejos de ser alguém
que marca
só consegui uma cicatriz
a enfeitar meu rosto.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

É verdade...


Não engulo a palavra
que pulsa.
Ousar também é perceber
que chega
de tentar ser...
Melhor é ser de uma vez.


Para Kiara, que mesmo sem querer desatou um nó.

Do meu silêncio













Anda em mim essa preguiça
de ser
que me impede de mexer
os sentimentos
que não me deixa ser
abusada
não me permite ver
o outro lado
e me faz parecer essa mulher
cansada.

Desses dias de silêncio
forçado
Vazios de palavras
ocos de sentido
acalento o lento desabrochar das horas
que pousam inférteis em meu ouvido.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Despedida















Não cai mais chuva
mas o vento fresco lembra
o aconchego antes da partida.
Tudo o que eu queria agora
era o arrepio que percorria o corpo
a felicidade disfarçada
no semblante de quem não ri.
O olhar faminto
indisfarçável
de cada momento
roubado.
A luz que emana
dos olhos que ousam
quer me iluminar,
mas não posso...
estou cega
outra vez...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Colcha de retalhos


Sigo emendando os retalhos
da vida que se reparte.
Pequenos pedaços de sonho
enfeitados
coloridos.
Em cada ponto
um pouco
de quem sou,
que eu mesma não sei dizer...
mas me pergunto todo dia
na esperança que a resposta
apareça nas estampas.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Shhhhh


















Silêncio.
Toda palavra adormeceu
Resta em mim essa lacuna eterna
que não preencho
não esqueço
não disfarço.
Tem horas que a felicidade é triste
e a calmaria é ilusória.
Quando não há jeito certo de dizer
eu não tento.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Claustro












Do que não revelas
eu sinto
tua vontade
de arrancar de mim
as asas
cortar meus pés
enclausurar meus devaneios
e porque não podes
ardes na febre eterna
e absoluta
do ciúme que não confessas.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

É segredo

Eu odeio essa mulher todo dia. As mudanças que ela sofreu, que vão bem mais além das finas rugas e de alguns cabelos brancos espalhados na longa cabeleira. Odeio o modo como ela se expõe, suas saias nunca abaixo dos joelhos, suas pernas bem torneadas mostrando aos outros o que eu queria só pra mim. Odeio a maneira gentil com que ela trata quem sequer conhece, o modo descuidado com que se porta. Odeio quando não me conta o que já sei, como se eu nunca fosse perceber que algumas palavras tem duplo significado e que nem sempre o mais adequado é o que ela quis usar. Odeio seus trejeitos de menina no corpo de mulher, seu sorriso condescendente, seu modo quase esnobe de dizer que sente muito, seu olhar de desdém ante minhas indagações.
Não sei quando comecei a odiá-la, só sei que em muitos dias é difícil olhá-la nos olhos, e eu viro de costas pra ela antes de dormir, pra garantir uma noite tranqüila. Mas não entendo, a mágoa que dobro e guardo noite após noite parece dissipada pela manhã, quando ela se move com delicadeza para não me despertar e eu sinto as costas ainda mornas dos beijos que ela displicentemente depositou antes de sair. Aí esse corpo cansado de retrair-se fica de súbito relaxado, e o perfume suave no travesseiro dela me desperta lentamente só pra me mostrar que ela já não está. E quando todos os fantasmas da ausência deitam ao meu lado a imagem dela perde o brilho, fazendo a dor da falta que ela me faz pulsar forte em cada canto do meu ser em agonia. O amor que eu tento jurar mas não sai da minha boca transforma-se na raiva de não saber como contê-la, e todo dia eu a odeio. É por isso.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Solidão


O amor que não aceitei
pesa nos meus ombros cansados
e desbota meus dias sem brilho nem cor.

O amor que eu não quis
arrogante
zomba de mim da janela entreaberta
enquanto eu recolho as palavras mortas
que enfeitavam as páginas amarrotadas
das declarações que um dia ela escreveu pra mim
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