terça-feira, 21 de abril de 2009

Das palavras de Cecília...

As poesias de Cecília Meireles sempre me acompanham, e vez por outra parecem ter sido escritas pra me descrever. Hoje, então, parece que elas gritam por mim.













Traze-me
(Cecília Meireles)

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!

sábado, 18 de abril de 2009

Alamedas


Desse chão que eu piso
nasce um pé de novidade.

Parede pintada
carro lavado
roupa nova.

Leve como a brisa fresca
rodopio em minha saia rodada
carregando pelo braço
a última dúvida:

ainda falta muito?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Quase magia...













(Para Lídia Luz)


Não são só as tuas histórias
que contas nas tuas cores
aromas, versos de lã
São as vidas entrelaçadas
que vicejam em teu olhar
e transpiram em pequenos pontos
numa alegria que seduz.
Pequenos pontos de vida
graça, beleza e luz.


Lídia é a artista que dá vida e graça a esses lindos trabalhos. Cada peça é feita com o cuidado que só uma artesã apaixonada pela beleza das cores consegue transmitir.

Veja mais em http://lidialuz.blogspot.com/

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Adeus











Respirou fundo
deu um olhar gelado
virou as costas
não olhou pra trás.
Cruzou a soleira da porta
deixando um rastro de perfume
e um buraco no meu peito.

Nunca mais
nunca mais.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Inquietação











Minha saudade tropeçou na tua imagem
e as gotas da tarde cinza de abril
acompanharam meu desassossego.
Quando penso que me convenci
a ser o que se espera
bate um vento
cai uma folha
toca uma música
e tudo o que estava arrumado
subitamente jorra de dentro de mim.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Travessia

O vento nem soprava mais como antes e eu continuava lá, esperando que algo acontecesse. A brisa fraca que chegava até mim não movia mais as minhas velas, e eu decidi voltar. Desembarcar em terra firme depois de meses em alto-mar foi estranho. Mas eu cheguei aqui, neste cais onde amarro meus sonhos, e me deixei abraçar pela grossa corda que segurava minha vontade de voltar.
Mais que estar longe da terra firme, sinto falta do arrepio que percorria minha espinha quando o mar estava revolto, as estrelas testemunhando a solidão de estar à deriva no meio do nada... O descanso que dizem que eu preciso é ilusório, minhas mãos não sabem ficar paradas, minhas pernas balançam querendo ir, mas dizem que devo ficar, e eu ainda permaneço neste porto agora deserto.
Caminho sem pressa alguma em direção ao abrigo que lembro vagamente onde fica, mas as chaves não estão comigo. Deixo-me cair pesadamente no gramado bem cortado da casa que um dia sonhei minha, mas que nunca me pertenceu. E o cheiro de maresia que trago em minhas vestes gastas me entorpece. Alguém caminha em minha direção, e eu me permito sorrir.
O abrigo dos braços que me querem próxima aquecem este corpo gelado de medo. Medo de nunca mais poder embarcar, de não saber mais como navegar, de não sentir os respingos da água salgada nas noites frescas. Mas eu me deixo conduzir para dentro, mesmo desacostumada a ter tantas paredes ao meu redor. Estar de volta também é bom. O cheiro de café vindo da cozinha me remete a um tempo quando eu não tinha outra vida senão aquela. E eu me deixo acalentar, cheia de saudades do que eu nem sei mais.
Agora, sentada em frente a esta janela de onde tantas vezes avistei o horizonte com olhos sedentos de conhecer o outro lado, eu mesma não me entendo... Parece que quanto mais eu quero voltar, menos eu quero sair daqui.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Desesperos secretos










A voz que vem de mim
quer que eu pare.
Finjo que não escuto
busco justificativas
pretextos tolos
para continuar.
Por mais que eu tente
não querer
o controle me foge.
Entra em mim
este alimento
que não me nutre
mas me entorpece.
E eu esqueço tudo
o que tinha prometido.

Eu me passo pra trás o tempo todo...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Valsinha









Aquele que declinou da dança
suspira
Não havia ninguém olhando
mas ele temia errar
e ela buscou outros pares.

A magia acaba à meia-noite
mas nem sempre...

terça-feira, 31 de março de 2009

Caçadora...











Caçadora
que se rendeu à caça
repouso agora sobre os restos
da sangria que causei.
Recolho minhas armas e sigo
sem qualquer orgulho
na tentativa de reparar
o que não tem conserto.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Leveza...











A leveza que me faz flutuar
sai dessa força que eu não sabia
trazer comigo.

O silêncio
muitas vezes
é um ato de contrição
e coragem.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Tempestade










Nesse dilúvio
afundo meus versos.
Esqueço que sou pequena
operária de palavras que gritam
meus conflitos.
Nado pra não morrer.


(Exagerada.
Só sei boiar.)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Lembrando











Água de chuva
vento forte
cano que vira bica...
Escrava das boas lembranças
alimento meus dias
cinzentos
com o perfume
amadeirado
das fotos desbotadas.

Selinho pra mim!

Minha amiga Alcinea, na onda dos selinhos, me passou esse selo lindo que passo agora a ostentar com o maior orgulho:
Obrigada!
Agora, minha lista dos 15 que valem a pena acompanhar:

sábado, 21 de março de 2009

Em claro










Rasga minha madrugada
a mulher magoada
que eu não percebia.
Repousa em minhas angústias
e mostra
com um sorriso de escárnio
o espaço vazio na cama.
Como uma mancha na parede branca
a solidão desenha meu rosto.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Não sei










Eu não sei
não ser
abstrair de mim
a alma
e ser só
objeto que se move
em segredo
enquanto tudo ao redor
vibra e chama.

Algo em mim
quer até sentir
medo

mas não há medo
em quem ama...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Eu não sei guardar segredo...













Aquele que guarda segredo
já não sabe esperar o abraço.
Traz a voz rouca
e o descompasso
de quem se sabe
a outra face da promessa.

A carne pulsa
tem pressa
mas não pode
escolher a hora.

Aquele que guarda segredo
já não pode com tanta demora...

terça-feira, 17 de março de 2009

Deixa que eu conto


Mesmo depois da tristeza ter ido embora ela ainda ficou por ali, olhos fechados, sentindo o vento que vinha da única janela aberta. Havia muito tempo não chorava, e até já tinha esquecido da sonolência que o choro sentido e convulsivo deixa quando passa. Abraçou uma almofada e tentou limpar a mente de tudo o que parecesse significativo. Adormeceu sem se dar conta que a porta estava destrancada, e não viu quando ele entrou.
Não percebeu, também, o olhar enigmático em sua direção, não sentiu as mãos que passeavam pelos seus cabelos curtos em desalinho, nem conseguiu sentir a ternura que saía daquele toque suave. O desconhecido que a tocava entrou em seu sonho como uma sombra, mas não sentiu medo. Sabia que ele não a faria mal algum.
E porque não tinha medo não ofereceu qualquer resistência quando ele desceu as mãos pelo rosto e encontrou a curva do pescoço macio, detendo-se naquele pedaço do corpo tão sensual e ao mesmo tempo tão frágil. Quando ele apertou-lhe a garganta ela sequer abriu os olhos. Não faltou-lhe o ar de imediato, nem tampouco sentiu dor. Ouviu um pequeno estalo e tudo escureceu.
Quando a empregada chegou para trabalhar no dia seguinte estranhou a porta entreaberta. O grito logo preencheu o ambiente decorado em tons de terra. Um alvoroço tomou conta dos vizinhos quando a notícia se espalhou. Ninguém ouvira nada, nem havia visto qualquer estranho entrar no edifício. Não havia qualquer pista que pudesse levar ao dono dos dedos que deixaram aquelas estranhas marcas arroxeadas no pescoço alvo da jovem que jazia, inerte.
As conversas de corredor não tardaram a começar. Logo, cada morador tinha seu suspeito. Pereira achava muito estranho o comportamento daquele jovem do 801, sempre de preto e com ar soturno, mas Duarte não concordava. Achava que devera ser alguém que havia subido com ela ao apartamento na noite anterior ao crime, mesmo não existindo qualquer registro de visitas na portaria. O carro dela tinha película escura, logo ela poderia ter chegado com alguém. Ou não?
Dona Suzana desconfiava do morador do 203, um senhor calvo, careca e obeso, que aos 40 e poucos anos ainda morava com a mãe e dividia seus dias entre o computador e o binóculo que usava para ver de perto a vida alheia. A vizinha do 502, sempre calada mas muito observadora, discordava de dona Suzana. Um sujeito como aquele não conseguiria entrar sem fazer barulho, e mimado pela mãe daquele jeito seria incapaz de matar uma formiga. Não, o assassino era outro. E continuava escondido sob o véu da incerteza, disfarçado sabe-se lá do quê, ou de quem.
Na dúvida, cada um antes de dormir fazia questão de conferir se as portas estavam devidamente trancadas, bem como todas as janelas. Alguns mais preocupados ainda colocaram alarmes e outros dispositivos de segurança. Mas tranqüilidade mesmo, ninguém nunca mais conseguiu ter. A não ser, claro, o respeitado morador do 601 que, semanas antes, ao passar pela porta do apartamento da jovem que morava sozinha não pode deixar de perceber a porta entreaberta e resolveu entrar.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Rastros














Enquanto traço meu caminho
pensando
o suor desenha em mim
um rastro
descendo
por curvas
vales
fendas
lembrando
das mãos que deixaram marcas
e ensaiaram danças.
Eu corro
mas não consigo
não pensar...

domingo, 15 de março de 2009

Música de hoje










Do nada pra lugar nenhum
(Nilson Chaves/Vital Lima)


Lembro de quanto tudo era doce
Lembro de quando tudo era vivo
Dentro de dois a força de ser só um
Hoje te vejo assim espantada
Como perdida em uma ilha e essa estrada
Que vai do nada pra lugar nenhum
Lembro da gente sempre bem perto
Por um caminho curto e direto
Atravessando os mares sem medo algum
Hoje te vejo em destino incerto
No meio desse imenso deserto
Que vai do nada pra lugar nenhum
O que será que existe dentro de nós dois
Além daquela vontade
Descobrir a verdade antes de tudo
O que haverá no muro entre nós dois
Além daquele espaço estranho
Escuro e mudo
Não há tristeza mais dolorida
Do que ter tido tudo na vida
E de repente perceber que é comum
Ser mais uma pessoa enganada
Ver o rumo confuso da estrada
Que vai do nada pra lugar nenhum...

sábado, 14 de março de 2009

Crepúsculo









A tarde sepultava um dia atormentado.
Nada de novo,
mas sempre a mesma esperança
de que o grito não ecoe.
As cicatrizes que ganhei
deixam meu olhar sombrio.

Só porque eu sorrio não quer dizer que sou feliz.
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