No dia vestido de azul
a palavra tem asas.
Ainda é cedo,
toda a tristeza repousa
sob o sol morno e agradável
do meio do mundo.
a palavra tem asas.
Ainda é cedo,
toda a tristeza repousa
sob o sol morno e agradável
do meio do mundo.
E se me achar esquisita, respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar.
(Clarice Lispector)


"Não me interessa saber o que você faz para ganhar a vida. Quero saber o que você deseja ardentemente, se ousa sonhar em atender aquilo pelo qual seu coração anseia. Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você se arriscará a parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua. Quero saber se tocou o âmago de sua dor, se as traições da vida o abriram ou se você se tornou murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se pode suportar a dor, minha, ou sua, sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se você pode aceitar alegria minha ou sua; se pode dançar com abandono e deixar que o êxtase o domine até as pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizer para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que me conta é a verdade. Quero saber se consegue desapontar outra pessoa para ser autêntico consigo mesmo, se pode suportar a acusação de traição e não trair a sua alma. Quero saber se você pode ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se pode buscar a origem de sua vida na presença de Deus. quero saber se você pode viver com o fracasso, seu e meu, e ainda, à margem de um lago gritar para a lua prateada: "Posso! "Não me interessa onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se pode levantar-se após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até os ossos, e fazer o que tem que ser feito pelos filhos. Não me interessa saber quem você é e como veio parar aqui. Quero saber se você ficará comigo no centro do incêndio e não se acovardará. Não me interessa saber onde, o que, ou com quem você estudou. Quero saber o que o sustenta a partir de dentro, quando tudo mais desmorona. Quero saber se consegue ficar sozinho consigo mesmo e se, realmente, gosta da companhia que tem nos momentos vazios." (The invitation, inspirado por Sonhador da Montanha Oriah, índio ancião americano, maio de 1994) 




Eu odeio essa mulher todo dia. As mudanças que ela sofreu, que vão bem mais além das finas rugas e de alguns cabelos brancos espalhados na longa cabeleira. Odeio o modo como ela se expõe, suas saias nunca abaixo dos joelhos, suas pernas bem torneadas mostrando aos outros o que eu queria só pra mim. Odeio a maneira gentil com que ela trata quem sequer conhece, o modo descuidado com que se porta. Odeio quando não me conta o que já sei, como se eu nunca fosse perceber que algumas palavras tem duplo significado e que nem sempre o mais adequado é o que ela quis usar. Odeio seus trejeitos de menina no corpo de mulher, seu sorriso condescendente, seu modo quase esnobe de dizer que sente muito, seu olhar de desdém ante minhas indagações.




